O "guverno" Bolsonaro

Empolgado com um elogio público do deputado Eduardo Bolsonaro, o secretário de cultura Mário Frias agradeceu de imediato pelo Twitter.

"Muito obrigado @bolsonarosp. A luta é diária sem direito a descanso. Vamos trabalhar incansavelmente para que todos os brasileiros tenham assesso a cultura".

O responsável pela cultura no governo de Jair Bolsonaro e ex-ator da novela juvenil Malhação escreveu "acesso" com erro ortográfico.

Acontece.

Entretanto, a Abraham Weintraub, o mal-educado ex-ministro da educação, acontecia quase todos os dias.

"Haviam emendas" em vez de "havia emendas", "insitaria" em vez de "incitaria", "qual alternativa à uma semana de férias" em vez de "qual alternativa a uma semana de férias", entre tropeços diários no hífen ou na vírgula, a comunicação de Weintraub parecia um guia de como os estudantes não devem escrever.

Num só tweet chamou Franz Kafka de "kafta", um petisco árabe muito comum no Brasil, e atacou "o PT e os seus acepipes", presumindo-se que em vez do sinónimo de petiscos quisesse escrever algo como "acólitos" ou "asseclas".

E em carta enviada ao ministério da economia, queixava-se, num trecho, da possível "suspenção" e, noutro, da eventual "paralização" do ensino superior.

Por falar nisso, Eduardo Bolsonaro regozijou-se pelo regresso dos "Jogos Escolares" pelo Twitter: "Paralizados desde 2004, os Jogos Escolares Brasileiros estão de volta no Governo Jair Bolsonaro", escreveu, animadíssimo.

"Tá ligado que "paralizados" é com "s", né bananinha [alcunha do terceiro filho do presidente]?", comentou alguém. "Pode aproveitar o regresso dos Jogos Escolares e incluir competições de ortografia", recomendou outro. ""Paralizado" é o teu cérebro", disparou mais um.

Um jornal, entretanto, deu-se ao trabalho de contar os 60 tweets do vereador Carlos Bolsonaro, irmão de Eduardo, de 8 de março a 8 de abril de 2020. Em 40 deles havia registo de erros de ortografia, concordância, acentuação...

Espécie de diretor oficioso de comunicação do pai, Carluxo, como é chamado, é crítico do gabinete oficial de propaganda do Planalto. "Vejo uma comunicação falha há meses da equipa do presidente", disse um dia. E concluiu: "Tenho literalmente me matado para tentar melhorar". De onde se pode tirar uma de duas conclusões - ou ele está morto ou ele não sabe o significado de "literalmente".

Ah, são coisas da juventude, dirão alguns.

Antigamente é que se aprendia com rigor - sobretudo nos colégios militares. Parece que não: segundo levantamento do economista Gabriel Brasil, em 318 publicações no Twitter nos primeiros três meses de mandato, o próprio Jair Bolsonaro, capitão de 66 anos, cometeu 86 erros.

Ah, são coisas de homem, dirão outros.

As mulheres são mais aplicadas nos assuntos escolares - pelo menos, é o que diz o estereótipo. Parece que não: Rogéria Nantes, primeira mulher de Jair e mãe de três dos seus cinco filhos, também tem conflito sério com o português.

Exemplo: Eduardo, o "especialista" em política internacional da prole bolsonarista, refletiu sobre a apertada eleição americana do ano passado. "A esquerda é bem organizada a nível mundial. Por isso é importante acompanhar as eleições dos EUA. O que acontece lá pode se repetir aqui", refletiu.

Atenta, a mãe reagiu: "A esquerda é uma só, em qualquer lugar do mundo, canalha!". Ou seja, com aquela vírgula marota chamou o próprio filho, e não a esquerda, de "canalha".

Por falar em EUA, é lá o paraíso na terra, segundo Bolsonaro, que faz continência à bandeira americana, e os bolsonaristas, cujo principal anseio na vida é juntar dinheiro para visitar a Disneyworld.

Por isso que se danem os erros de português, a hora é de investir pesado no inglês. Vai daí, o governo brasileiro fez anúncio na seleta primeira página do Financial Times a garantir que protege a Amazônia mas sublinhando "its sovereing actions", em vez de "its sovereign actions", na floresta. Ou seja, uma gralha milionária paga com dinheiro público.

O bolsonarês é uma língua universal.

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