O hidrogénio não é nuclear para  Macron - e a sua voz soa mais alto

Não foi preciso que passassem sequer dois meses sobre as declarações de um ufano primeiro-ministro para os planos começarem a mudar, conforme aconteceu em todas as outras tentativas de criar uma ligação de fornecimento energético entre a Península Ibérica e o resto da Europa. Exatamente como antes, França pressionou e Espanha cedeu, agora em meros 50 dias. E o tal gasoduto que iria transportar gás para o resto da Europa e também lá faria chegar o hidrogénio verde quando a tecnologia estivesse pronta - um projeto anunciado com toda a pompa por António Costa como o fim de um "bloqueio histórico" - já mudou.

Na própria da reunião de onde sairiam os detalhes para a construção dessa peça fundamental nas "futuras interligações de gás renovável entre Portugal e Espanha", com infraestruturas para o hidrogénio "tecnicamente adaptadas para transportar outros gases renováveis, bem como uma proporção limitada de gás natural como fonte temporária e transitória de energia", caiu logo metade da ideia.

"Espanha e França abandonaram a ideia de começar por transportar gás natural e dizem que o corredor verde será apenas dedicado ao hidrogénio", noticiava nesta semana o Financial Times. As razões prendem-se com um facto simples: é consideravelmente mais simples e barato desembarcar o gás diretamente em Marselha do que deixá-lo em Barcelona e construir toda uma infraestrutura para o fazer fluir entre as duas cidades.

Por outro lado, há os planos de longo prazo: como já aqui escrevi, Bruxelas quer acabar muito rapidamente com o gás natural na Europa, é apenas um combustível de transição, como tem sublinhado, enquanto as renováveis não chegam para tudo. Pelo que a Comissão até admite a construção de um pequeno troço que possa interessar ao lado de cá dos Pirenéus (o tal de Celorico), mas marca-lhe desde já a data de óbito, recusando financiar qualquer projeto que potencie o prolongamento do uso de gás.

Não é que seja a Europa a pagar a totalidade dos 2,5 mil milhões de euros preliminarmente previstos da obra que ligará Barcelona a Marselha - um dos maiores investimentos de sempre para responder à crise energética europeia -, mas metade do projeto deve contar com financiamento comunitário. Assim os países envolvidos, França, Espanha e Portugal, se candidatem aos fundos nos próximos cinco dias.

Poderá a conduta do hidrogénio verde (gasoduto não será...) responder aos problemas urgentes da Europa? Não, até porque se aponta 2030 como prazo de conclusão da obra - e já no inverno de 2022/2023 haverá muitos europeus a morrer de frio, muitas indústrias a investir no shift para soluções de autoconsumo porque já não suportam as contas de energia. Mas esta "não é uma infraestrutura para resolver os atuais problemas, é um instrumento para a descarbonização", esclareceu Madrid ao FT, depois de se voltar a dobrar à vontade de Paris. Mesmo numa altura em que a própria França sofre falhas de energia, entre a seca a comprometer a eletricidade gerada pelas barragens e os problemas de funcionamento que obrigaram a desligar quase metade das 56 centrais nucleares que alimentam muito mais do que os domínios de Macron.

Quem acredita que há ainda uma esperança de este plano ver a luz, fique com este detalhe, partilhado com a Euronews pelo presidente da Comissão de Peritos para a Transição Energética: Espanha é o segundo país mais investido na solução do hidrogénio verde, depois dos EUA. Mas se França não adaptar as suas infraestruturas ao transporte de hidrogénio, a nova conduta que supostamente ligará Barcelona e Marselha não servirá para coisa nenhuma. E Macron não parece minimamente interessado em mexer um dedo para se empenhar num investimento de retorno incerto e com efeitos insignificantes para uma potência da energia nuclear. O seu empenho está antes em garantir a transição das centrais para a fusão nuclear, totalmente segura e livre de emissões, que deverá estar 100% funcional em cerca de 25 anos.

Quanto à voz de Portugal no tal corredor verde, basta ler o FT para entender claramente a irrelevância do país num negócio firmado, muito simplesmente, entre Espanha e França. E a Europa acabará por agradecer. Independentemente de quantas vezes António Costa chame o amigo Scholz para lhe dar palmadinhas nas costas.

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