O impacto da Covid-19 no setor da energia

O coronavírus traz o risco de enfraquecer os investimentos globais em energia verde, bem como todos os esforços para reduzir as emissões.

 

Atualmente, vivemos momentos atípicos provocados pela pandemia Covid-19, que está a impactar todos os setores, desde os transportes, passando pela saúde, pela restauração até à energia. Se, por um lado, assistimos a uma queda dos preços do petróleo - causada, em grande parte, por enormes reduções nas viagens, por outro, assistimos a uma redução, simultânea, das emissões de gases de efeito estufa (GEE).

Parece impossível, mas de facto a crise económica global, incentivada pelo coronavírus, fez com que as emissões de dióxido de carbono caíssem, este ano, pela primeira vez desde a crise financeira de 2009, prevendo assim uma quebra anual geral que variará entre 0,3% a 1,2%, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). Atualmente, o mundo está também a emitir menos um milhão de toneladas de dióxido de carbono por dia - se pensarmos bem, já nem nos lembramos da última vez que existiram tão poucos aviões no ar e que as emissões eram tão baixas.

Perante este contexto, muito são os que dizem que esta pandemia poderá ser uma espécie de milagre ecológico e que é o planeta a pedir-nos para tomar medidas. Justificam as suas razões com as imagens de satélite, disponibilizadas pela NASA, sobre a redução da poluição na China, que são realmente notáveis, após uma queda de 25% nas emissões, durante quatro semanas de bloqueio. Alguns defendem até que o futuro precisa de se parecer mais com o mundo fechado do coronavírus, de forma a conseguir enfrentar a crise climática.

Contudo, esta é a forma errada de olhar para a situação. O facto de existir uma pandemia global com milhares de mortes, um rápido aumento do desemprego, implementação de medidas exigentes para que todos os transportes sejam parados e alguns reduzidos, assim como a transferências de enormes quantidades de investimento, agora canalizados para situações consideradas prioritárias, deverá ser antes visto como um alerta para o tamanho do desafio climático que enfrentamos e para a complexidade do problema a que todos assistimos e talvez pouco fazemos para o mudar.

O mundo precisa, sem dúvida, de uma economia funcional para continuar a conseguir fazer avançar a sociedade, tirar as pessoas da pobreza e, sobretudo, contribuir com avanços científicos necessários para resolver crises como esta. No entanto, a redução de emissões, este ano, poderá dar-nos algum tempo extra para conseguirmos definir uma nova estratégia relativa às mudanças climáticas. Mas é essencial que tenhamos sempre em mente que é possível ou muito provável que a desaceleração económica prejudique o desenvolvimento e a implementação de tecnologias para fomentar a energia verde, segundo a Agência Internacional de Energia, e se os governos e os reguladores não agirem de forma a criar planos que visam estimular a economia para apoiar a transição de baixo carbono, o coronavírus, certamente, enfraquecerá os investimentos globais em energia verde, bem como todos os esforços para reduzir as emissões.

Possivelmente, é ainda cedo para determinar quais serão as consequências da pandemia, mas é improvável que a atual queda nas emissões de carbono seja sustentável, uma vez que os baixos preços dos combustíveis fósseis irão, seguramente, prejudicar a competitividade de fontes alternativas de energia – por exemplo, pessoas que têm um carro a gasóleo ou gasolina, em que o preço dos combustíveis, neste momento, está tão baixo, porque é que irão mudar para um elétrico? Naturalmente, não vão e isto significa que estamos a correr o risco de perder anos e anos de incentivos à implementação de novas medidas, novas formas de mobilidade, de partilha de energia que poderão, simplesmente, ser desvalorizadas.

Outro exemplo, várias são as empresas globais que contribuem para o desenvolvimento e crescimento da energia verde, e que, perante esta realidade, tiveram de, simplesmente, parar, como: a Tesla que fechou as suas fábricas na Califórnia e em Nova Iorque, a Siemens Gamesa, o segundo maior fabricante de turbinas eólicas do mundo, fechou uma segunda central elétrica. Por outro lado, esta pandemia poderá também dificultar a manutenção de parques eólicos e solares em funcionamento, devido a proibições de viagens e atrasos na manutenção.

Apesar desta pandemia ter demonstrado a necessidade urgente de utilizarmos ainda mais a energia verde de forma imediata, irá, muito provavelmente, retardar a transição energética por várias razões. Neste sentido, é essencial que os governos, assim como todos nós, não percamos de vista todas as medidas, soluções e incentivos para que continuemos a apostar, cada vez mais, em energia verde e nos foquemos em continuar a combater as alterações climáticas.

Manuel Azevedo é CEO da Energia Simples

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