Opinião

O inferno da Califórnia

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Los Angeles, 49,4º. O calor extremo, apagões e incêndios mostram o quão urgente é tomar medidas drásticas para combater as alterações climáticas

No Verão de 2009, visitei as pirâmides de Gizé, no Egipto, e compreendi finalmente o conceito de alucinar e ver oásis no deserto. O calor era tão denso e sufocante que comecei a ver imagens inexistentes no horizonte. O tempo andava mais devagar e o desespero caía sobre mim como as gotas de suor, enquanto procurava voltar para o autocarro de turismo onde havia ar condicionado. O caminho estava pejado de pessoas sentadas no chão, a tentarem abanar-se com leques e a deitarem água pela cabeça baixo, vermelhas como pimentos, respirando em golfadas de ar. Um calor tão opressivo deturpa o raciocínio e manda o corpo mal habituado para a berma do colapso.

Nunca pensei que, onze anos depois, veria isso acontecer na maior cidade do sul da Califórnia. Los Angeles bateu todos os recordes de temperatura este fim-de-semana: na baixa, os termómetros registaram 47º. Em Woodland Hills, alguns quilómetros para norte, chegaram aos 49,4º.

É difícil descrever o quão insuportável este nível de calor é numa cidade tão densamente povoada e com tão elevados níveis de poluição, em que a qualidade do ar é frequentemente caracterizada como “insalubre”.

Esta onda de calor conseguiu ser pior que a de 2018, em que já tinham sido batidos os recordes anteriores. Não há muitas dúvidas sobre o que está na origem: “Estamos particularmente preocupados com o facto de que estes eventos de calor extremo e os seus impactos na saúde estão a aumentar nos últimos anos devido às alterações climáticas”, disse o Departamento de Saúde Pública do condado de Los Angeles, citado pelo LA Times.

LA, tal como outras zonas fortemente atingidas por eventos extremos nos Estados Unidos, é um prelúdio do que poderá começar a acontecer com mais frequência em mais regiões do mundo se nada for feito para abrandar a crise climática. Há um limite para o quão quente o ambiente se pode tornar e continuar compatível com a sobrevivência dos seres humanos. Não é uma questão de adaptação.

Mesmo para os que estão habituados a estes dias muito quentes, que costumam acontecer entre Agosto e Setembro, a desvalorização do perigo pode ser fatal. O condado de Los Angeles encerrou os trilhos de caminhada nas montanhas de Santa Mónica após várias operações de salvamento de pessoas que se sentiram mal no calor. Uma mulher de 41 anos acabou mesmo por morrer depois de sofrer convulsões enquanto fazia caminhada com uma amiga.

Um dos especialistas citados pelo LA Times explicou que o calor extremo representa o maior risco de morte de todos os eventos anormais causados pelas alterações climáticas. As previsões apontam para que estas ondas de calor se tornem mais frequentes, agravadas pelo facto de não haver uma grande redução da temperatura durante a noite e as casas, por norma, não terem isolamento. Sem ar condicionado, a temperatura interior sobe facilmente aos 40º. E com os apagões na rede eléctrica que são feitos por algumas fornecedoras de electricidade para prevenir um colapso total do sistema, milhões de pessoas ficam sem acesso a electrodomésticos que ajudem a resistir ao calor.

Enquanto isto acontece, uma parte substancial do estado luta contra os milhares de incêndios que são provocados pelas trovoadas secas e pelo calor intenso. É um cenário dantesco. Um inferno climático que mostra o quão urgente é tomar medidas drásticas num futuro próximo.

Quando a pandemia de covid-19 levou ao confinamento, os níveis de poluição caíram quase imediatamente e houve alguma esperança de reversão dos estragos. Mas agora, o cenário oposto é o que parece mais provável: para acelerar a recuperação económica, as protecções ambientais poderão ser postas de lado (é algo que tem vindo a ser feito pela administração Trump e poderá ser agravado com esta recessão). Ou seja, o breve intervalo que o confinamento deu ao planeta será pago em dobro com práticas destrutivas. A pandemia podia ter sido uma oportunidade de mudar para melhor. Talvez ainda se vá a tempo, mas no horizonte vislumbra-se o exacto oposto disto.

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