O melhor ano de sempre das exportações foi 1974. Ou 1979

Paulo Portas
Paulo Portas

O vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, afirmou ontem num evento chamado “Portugal Exportador” que as exportações atingirão “o melhor ano de sempre” em 2013, subindo até 41% do produto interno bruto, quando há cinco anos este rácio estava em 28%, observou.

Não é bem assim. Houve anos muito melhores. E, pior, ainda há muitos riscos pela frente, sobretudo ao nível da concessão de crédito e da procura externa, que podem dificultar esse caminho, mesmo o das empresas mais preparadas, inovadoras ou que mais diversificam. E isto, claro, juntar-se-á a incógnita que é o impacto da reforma do Estado na economia real em 2014.

É um facto que o sector exportador tem apresentado um dinamismo “notável”, sendo hoje, em termo aritméticos, o único motor da economia (dito de outra forma, não fossem as exportações, a recessão seria pior que os 1,8% previstos para este ano). Mérito dos empresários que diversificaram os destinos das suas vendas (para fora da Europa), que investem em inovação de produtos, da competitividade dos serviços, com destaque para o turismo.

No entanto, este ano não será, nem por sombras, o melhor de sempre das vendas para o exterior: nem em crescimento real, nem nominal, nem em termos de peso do agregado no Produto Interno Bruto, como aludiu o líder do CDS.

Paulo Portas também ignorou o brutal esvaziamento da economia desde 2008 e, com mais agressividade, desde que o seu Governo chegou ao poder, em 2011. Tivesse o PIB nominal ficado em redor dos 170 a 171 mil milhões de euros e o rácio das exportações do PIB seria 39% em vez dos 41%. Portanto, parte desse sucesso a que aludiu Portas até é ilusório: tem a ver somente com a redução na base da fração. Foi o que aconteceu nos anos 70 do século passado.

Quando muito o ‘sucesso’ poderia ser visto em termos nominais, mas, convenhamos, nunca pode ser esse o termo de comparação porque dessa forma está-se a incorporar o efeito da expansão dos preços (e antes do euro, das desvalorizações cambiais). Desde 1960, as vendas a preços correntes só caíram quatro vezes, por exemplo.

De acordo com as séries histórias disponíveis (as da Comissão Europeia remontam a 1960), o nível mais alto das exportações em relação ao PIB registou-se em 1974 (137,1%, com as importações a comerem largamente esta sobre representação no PIB) – este ano rondará 41%; o maior crescimento nominal aconteceu em 1979 (35,8%) quando em 2013 se ficará pelos 5,2%; e a maior expansão real (expurgando a inflação) também foi nesse ano (27,8%) – em 2013 será 5,8%.

Mas os anos 70, sabe-se, foram atípicos, atribulados. A economia estava de rastos devido a décadas de isolamento e opressão; e altamente dependente de recursos exteriores: dinheiro, conhecimento, comida, tecnologia. A economia interna estava altamente deprimida, logo as exportações tendiam a destacar-se facilmente. Hoje, com o ajustamento da troika, acontece algo parecido. Sempre que se faz uma desvalorização interna é natural que sejam os transacionáveis a destacar-se – o seu mercado está lá fora.

Portas não o disse, mas o bom desempenho das exportações vem acompanhado de uma alteração na balança externa para melhor que leva a esperar tempos mais auspiciosos.

Nos anos 70, Portugal era altamente deficitário face ao exterior (uma posição negativa crónica que perdurou até 2012). As mais recentes projeções sobre a economia portuguesa apontam para a manutenção de um excedente na balança corrente durante pelo menos três anos, algo nunca visto.

Mas tendo em conta a tradição, ainda há dúvidas sobre a “sustentabilidade” do novo modelo de desenvolvimento. É que o reequilíbrio externo continua a ser reflexo do efeito combinado da depressão no consumo com o congelamento do investimento e os problemas de crédito, que assim puxam menos pelas importações.

E tanto quanto se sabe, o país continua a ser (cronicamente?) importador de tecnologia (e de marcas estrangeiras), o que eleva a probabilidade de, que quando chegar a retoma do investimento, as compras voltem a subir de forma significativa.

Até lá, Paulo Portas vai dizendo que “os resultados atingidos pelo país dão uma lição de humildade àqueles que fazem previsões económicas e que olharam para as exportações portuguesas com grande ceticismo”.

Uma vez mais: o problema do crescimento futuro não está no mérito dos exportadores, que o têm. Está na base da economia real. Está no músculo e nos ossos da economia doméstica, no facto de não haver uma tradição industrial forte, histórica, nem produção própria de tecnologia ou inovação em larga escala, ainda que Portugal tenha as pessoas (as qualificações) e algumas condições de base (as infraestruturas) para poder ser algo diferente. Para melhor.

Mas voltando às exportações. O vice-primeiro-ministro esqueceu-se de outro detalhe importante. Este ano, boa parte do crescimento musculado das vendas deve-se, não à economia como um todo ou à pujança em uníssono dos vários sectores, mas a uma única empresa: a Galp. Deve-se às vendas de combustíveis, aos resultados do investimento feito por aquela companhia. Deve-se a um efeito de concentração na criação de valor, o que evidencia a exposição da economia ao mercado de uma empresa. Ou a este tipo de mercado.

Só para se ter uma ideia, no capítulo das exportações de mercadorias, nos três trimestres do ano que acabam em setembro, as vendas cresceram, em termos nominais, cerca de 4%. Excluindo a faturação em combustíveis e lubrificantes, o avanço das exportações fica-se por menos de metade: 1,7%.

O Banco de Portugal, no último boletim económico, faz uma análise limpa do que está a acontecer. Sublinha que “no que se refere a 2013, é de destacar o contributo do crescimento das exportações de bens energéticos, associado ao aumento permanente da capacidade de refinação instalada”.

Mas destaca “o aumento expressivo das exportações de serviços” e “o desempenho notável das exportações de turismo e serviços correlacionados”, bem como o aprofundamento dos mercados extra-comunitários, como Angola, por exemplo.

Nota final: Paulo Portas referiu que “em cinco anos, as exportações de Portugal passaram de 28% do Produto Interno Bruto (PIB) – correspondente a 31 mil milhões de vendas em valor – para 40% do PIB no ano passado – correspondente a 45 mil milhões de vendas”. Os rácios estão corretos, mas os valores em euros estão errados. O vice-PM esqueceu-se de contar com as exportações de serviços (com o turismo) nas contas que apresentou.

Este ano, os exportadores baseados em Portugal devem faturar, não 45 mil milhões, mas 67 mil milhões de euros a preços correntes.

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