Opinião: Alberto Castro

O meu lugar no mundo

Fotografia: Maria João Gala/Global Imagens
Fotografia: Maria João Gala/Global Imagens

Quando os recursos não chegam é preciso optar. As que estão a ser feitas têm os preconceitos de quem decide, e não os destinatários, no centro

Em The Future of Capitalism, Paul Collier refere, quase logo a abrir, o diferente percurso e sucesso, que ele e a sua prima tiveram. Originários, ambos, de famílias humildes, tiveram trajetos paralelos até ao secundário. A morte precoce do tio desestruturou a família. Iguais até aí, ele veio a ser um reputado professor; ela foi mãe solteira muito cedo e nunca se libertou de um círculo vicioso inibidor que se propagou às filhas. Não foram as aptidões intelectuais, nem o estatuto económico inicial que os separaram, mas o contexto de aprendizagem, a começar na envolvente familiar.

O estudo sobre o acesso ao ensino superior, há pouco tempo divulgado, sublinha a correlação entre qualificações dos pais e o acesso dos filhos às melhores escolas/cursos. É algo consabido sendo, ainda assim, sempre bom que um estudo rigoroso o volte a confirmar. A importância decorre do papel que as habilitações escolares têm na abertura de oportunidades para aceder ao “elevador social”, escapando à reprodução da estratificação classista.

Esta é a realidade. O que foi ou está a ser feito para a modificar? Muito pouco! Há medidas espampanantes (gratuitidade de manuais universal; fim das propinas) de duvidosa eficácia se a prioridade fosse, mesmo, a melhoria da situação dos mais desvalidos.

Voltemos a Collier. De pequenino se molda o destino. Além de condições mínimas de vida (para as quais a atual ação social escolar é insuficiente), sabe-se hoje que coisas tão simples como os pais mostrarem interesse em saber como está a correr a escola ou se há trabalhos de casa têm impacto no aproveitamento.

Nos casos mais bem-sucedidos, afetaram-se recursos para que técnicos acompanhassem essas famílias mais frágeis, sensibilizando-as para aquelas, e outras, pequenas mudanças de comportamento. Quando os recursos não chegam para tudo, é preciso fazer escolhas. As que foram, e estão a ser feitas, têm os preconceitos de quem decide, e não os destinatários, no centro. Valham-nos organizações como, por todos, “O meu lugar no mundo”, uma designação que é todo um programa.

Alberto Castro, economista e professor universitário

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