Opinião

O Milagre da Educação

O primeiro-ministro, António Costa (E), acompanhado pelo ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues (D), na sessão de apresentação nacional do #EstudoEmCasa – A Escola na Televisão, grelha de programação dos conteúdos pedagógicos temáticos, concebida para os alunos do ensino básico, privados de ir à escola devido à pandemia da covid-19, nas instalações da RTP, em Lisboa, 15 de abril de 2020. ANDRÉ KOSTERS/LUSA
O primeiro-ministro, António Costa (E), acompanhado pelo ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues (D), na sessão de apresentação nacional do #EstudoEmCasa – A Escola na Televisão, grelha de programação dos conteúdos pedagógicos temáticos, concebida para os alunos do ensino básico, privados de ir à escola devido à pandemia da covid-19, nas instalações da RTP, em Lisboa, 15 de abril de 2020. ANDRÉ KOSTERS/LUSA

Os políticos orgulham-se dos progressos feitos por Portugal nos últimos 40 anos ao nível da Educação, desceu a taxa de analfabetismo e alargou-se a escolaridade média dos residentes. Esquecem-se, contudo, de que os outros países também têm feito progressos. É que se trata de uma corrida entre vários atletas e não uma prova de contrarrelógio individual.

Nessa corrida infelizmente temos ficado cada vez mais para trás como o atesta o recente estudo da OCDE que coloca Portugal no grupo de países com menor capacidade de alargar o teletrabalho. Porquê? Porque grande parte da população não tem nem a instrução suficiente, nem as funções necessárias a poder trabalhar à distância.

Essa disfuncionalidade de qualificações do mercado de trabalho, fruto do milagre educacional português, coloca-nos no grupo de países que será mais atingido pelo desemprego em 2020 e em 2021. As projeções da OCDE apontam para um desemprego de 12% para o último trimestre deste ano se não tivermos uma segunda vaga da pandemia. Se a tivermos então a previsão agrava-se para 17%!! A sociedade portuguesa mergulha num ciclo de pobreza e emigração.

Mas este desemprego é causado pela pandemia e não pelo milagre educacional dizem os políticos. Vejamos. Se assim fosse as projeções seriam iguais para todos os países. Mas não são. Para o Japão a OCDE prevê um desemprego de apenas 4% no pior cenário (duas ondas), para a República Checa 5%, para a Coreia 5,1%, para a Alemanha 5,5%, para a Holanda 8,5%, para a Itália 12%. Pior que Portugal temos a África do Sul um país com um desemprego cronicamente muito elevado com 35% e a Colômbia com 25%. Parece claro- quanto mais qualificados os trabalhadores menor o impacto da pandemia e inversamente quanto menos qualificadas as funções maior o desemprego.

As indústrias portuguesas são ainda de mão-de-obra intensiva, refletindo o baixo nível das qualificações, e o uso de robots é dos mais baixos da OCDE situando-se ao nível do México. Portugal tem menos de 50 robots por cada 100.000 trabalhadores, número que contrasta com mais de 150 na Suécia e os 400 da Coreia.

Os níveis de compras pela internet e de acesso ao Banco pela internet são também dos mais baixos da OCDE, ambos inferiores a 50% de utilização contra os quase 100% dos países nórdicos. Estes indicadores mostram a dificuldade de alargar a economia digital.

Regressando ao teletrabalho os dados de 2019 revelam que Portugal era um dos países que menos recorria a esta ferramenta. Se na Noruega o volume de trabalhadores parcialmente ou a tempo inteiro em teletrabalho atingia os 60% em Portugal nem metade desse valor conseguia. A média da OCDE situava-se para esse indicador em 40% estando Portugal no grupo dos países com menor capacidade de implementação do teletrabalho.

Portugal também não possui as infraestruturas necessárias ao teletrabalho como recentemente se viu com o ataque à plataforma do Ministério da Educação que redundou na paralisação das matrículas para o próximo ano letivo. Sem segurança e fiabilidade das infraestruturas as empresas e as instituições não podem avançar para o digital. Os riscos permanecem elevados e as funções que podem, nessas circunstâncias, ser migradas escassas.

No estudo da OCDE revela-se que o acesso à internet desde idade precoce é essencial para obter qualificações digitais. A percentagem dos jovens de 15 anos que tiveram contacto com a internet com menos de 6 anos é em Portugal de apenas 17%, o que mostra que estamos muito longe de ter introduzido a digitalização no ensino primário que Sócrates prometeu faz mais de uma década.

Enfim um milagre … à portuguesa. Como todos os milagres. Imaginário.

* Jorge Fonseca de Almeida, economista, MBA

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