Opinião: Luís Miguel Ribeiro

O Muito, afinal é muito Pouco

Fotografia: Igor Martins/Global Imagens
Fotografia: Igor Martins/Global Imagens

É uma forte evidência de que o crédito não estará a ser canalizado, de forma significativa, para este segmento dos pequenos negócios

As medidas de apoio à economia, em consequência da crise provocada pela covid-19, apesar de estarem na direção certa, revelam-se, logo à partida, insuficientes.

Face à “avalanche” (expectável) de candidaturas – e apesar do reforço da dotação para 6,2 mil milhões de euros -, algumas linhas de crédito com garantia do Estado já foram encerradas.

A primeira conclusão a tirar é a necessidade de o Governo continuar a reforçar o financiamento às empresas, que enfrentam uma carência séria de liquidez. Mas o reforço, por si só, não será suficiente. Importa assegurar a sua canalização para as empresas que realmente mais precisam.

À AEP, as empresas revelam dificuldades no acesso a estas linhas, mesmo cumprindo os requisitos. Refiro-me a pequenos negócios, do comércio, da indústria ou dos serviços, confrontados com o enorme problema de tesouraria, que, se não for resolvido, porá em causa a sua sobrevivência e a manutenção de centenas ou milhares de postos de trabalho.

Sabemos que 96% do tecido empresarial é constituído por empresas com menos de dez trabalhadores, responsáveis pela maior fatia do emprego (45%) e do investimento (34% da FBCF empresarial).

De forma inversa à sua enorme importância relativa, também sabemos que este é um segmento que revela uma menor capacitação técnica para aceder a pedidos de crédito junto da banca, situação que lhe confere uma desvantagem, nomeadamente se tivermos em conta que a ordem de entrada da operação também conta.

Dados da SPGM mostram que cada operação de financiamento aprovada correspondeu, em média, a 125 mil euros. Apesar da necessidade de relativizar sempre uma média, é 2,5 vezes o montante máximo que uma microempresa pode beneficiar na linha a que se candidata. Ou seja, uma forte evidência de que o crédito não estará a ser canalizado, de forma significativa, para este segmento dos pequenos negócios.

Perante estes dados, interrogo-me se não deveria o Estado pensar numa afetação global em função do peso do segmento empresarial na economia.

Considerando o peso no emprego, significaria que 2,8 mil milhões de euros seriam canalizados para as microempresas. Sabemos que apenas cerca de 2,4 se dirigem ao conjunto das micro e pequenas empresas – longe do peso que ambos os segmentos representam. Uma aplicação proporcional corresponderia a afetar 3,98 mil milhões de euros.

 

Luís Miguel Ribeiro, presidente da Associação Empresarial de Portugal

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