Opinião: João Almeida Moreira

O Mundial da causa operária

Neymar. Fotografia: REUTERS/Kai Pfaffenbach
Neymar. Fotografia: REUTERS/Kai Pfaffenbach

A cobertura do Mundial pela Globo? Formidável, pelos meios colocados à disposição, incluindo estúdios com vista para a Catedral de São Basílio, em Moscovo, e mais de 500 profissionais envolvidos nas transmissões, somados o canal aberto e o braço desportivo do grupo, o Sport TV. Mas também excessivamente oficial e ufanista, como de costume.

A da Fox Sports? Valeu pela ideia de destinar um canal a narradoras e comentadoras, entre outras abordagens originais. Mas pecou pelo abuso dos programas de debate popularuchos.

A da ESPN Brasil? Os melhores e mais informados jornalistas desportivos do Brasil. Problema? Ao contrário das concorrentes, não tinha os direitos da transmissão da Copa.

Os gigantes Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo também dedicaram interessantes e detalhados suplementos diários ao evento, com destaque para o do jornal carioca. Nas rádios, relatos de todos os jogos. Até os milhares de títulos regionais e locais espalhados pelo Brasil cobriram o Mundial, alguns com enviados à Rússia.

Mas a mais improvável das coberturas partiu de um partido político: o Partido da Causa Operária (PCO), fundado nos anos 90 pelas correntes mais à esquerda do Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula da Silva. Sem grupo parlamentar, o seu candidato a presidente recebeu pouco mais de 12 mil votos, num universo de perto de 150 milhões, nas eleições de 2010 e 2014.

Ora o PCO comentou nas suas redes sociais cada jogo e cada resultado da Copa. Indiferente à adaptada máxima marxista de que o futebol, como outrora a religião, é o ópio do povo, começou por congratular-se com o início do evento e com a escolha do país organizador: “Começa a Copa do Mundo! Campanha do imperialismo contra a Rússia fracassa“. Em seguida, uma espécie de convocatória: “A Copa é um instrumento de politização e de mobilização de opiniões contra a direita”.

Depois, críticas ao VAR (vídeo árbitro), um instrumento, segundo os repórteres do PCO, a favor dos europeus: “VAR: o melhor jogador europeu de todos os tempos”, titulou.

Mais tarde, sob o antetítulo “urgente!”, defendeu Neymar: “Começou: com medo, países imperialistas intensificam campanha para tirar Neymar da Copa”, a propósito das críticas à teatralidade das suas quedas.

E as eliminações, em dias seguidos, de Portugal e Espanha? Mereceram forte aplauso do PCO: “Rússia vence a Espanha nos penáltis, classifica-se e deixa mais uma seleção imperialista fora da Copa”; e “Uruguai vence Portugal 2-1: um dos países preferidos do imperialismo dá adeus à Copa”.

O Mundial, ao longo da sua história de quase cem anos e 21 edições, serviu de propaganda aos regimes de Benito Mussolini, no Itália-34, e de Jorge Videla, no Argentina-78. Em 1938, o austríaco Sindelar recusou-se a jogar pela Alemanha e, em 1958, os franco-argelinos convocados pela França dispensaram os privilégios de atuar na competição em favor da consolidação de uma seleção independente no seu país de origem. E jogos como o RFA-RDA, de 74, ou Irão-EUA, de 98, foram, claro, muito mais do que partidas de futebol.

No Sérvia-Suiça deste ano, os helvéticos Xhaka e Shakiri festejaram os seus golos replicando com as mãos uma águia de duas cabeças, símbolo do seu Kosovo, em conflito com os sérvios.

É ridículo achar que o Mundial de futebol não é política. Mas pensar que tudo é política, ainda para mais segundo crenças enviesadas (e reacionárias), é mais ridículo ainda.

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