O mundo que me faz rir

E voltou tudo. As lancheiras, os piolhos, as atividades, as festas, as alergias e os amigos. A vida a querer ser aquilo que era. Ponho-me a pensar em como eles eram e como estão agora, depois de um ano aos solavancos, perto demais uns dos outros e longe das novas pessoas que não chegaram a entrar nas suas (nossas) vidas. Fomos sempre os mesmos e por isso eles já não são os mesmos. Estou a vê-los de longe e não são os mesmos. Estão mais crescidos e abatidos. Este ano cresceram comigo a assistir, coisa que nunca tinha arriscado fazer. Antes eles estudavam, saiam, e eu na minha vida. Ao fim do dia, as coisas práticas dos recados, as discussões, as obrigações e os risos. Era um dia atrás do outro e nenhum era igual ao anterior. Rotinas não casam com isto. Uma vida em modo de montanha russa que começava quando abria os olhos e só acabava quando os pregava numa série e a uma hora em que já eram horas de me ir deitar. Sorria sempre quando os deixava e ainda mais quando chegavam de volta a mim. Mas nunca fiquei pasmada a olhar para eles, dia após dia, a ver tudo. É como fixar uma flor a crescer - alguém já experimentou? Conseguem ver uma flor crescer? Pois eu vi. Este ano vi. E, olhem, não tenho saudades. Gosto mais de os ouvir a contar as coisas, de imaginar aquilo tudo e, de repente, de dar por eles: "olha, cresceu tanto". Assim, com orgulho de mãe, com vaidade da boa. Mas ver tudo ao pormenor não é para mim.

No outro dia já me ligou um professor porque o miúdo anda saído da casca. E no dia a seguir ligou outro professor, porque há um que saiu da casca há já algum tempo e desde então que anda em parte incerta, anda chateado com as pessoas em particular. Há de passar, dizem-me, mas não me sossegam. E a do exame? Não pensem que é por eles andarem na faculdade que a comédia acaba. "Então, correu bem?". Respondeu que "muita bem", tendo em conta a expectativa que tinha. Que era qual? "Achei que me ia correr pior". Quer dizer, a negativa que aí vem não vai ser muito baixa. Dei-lhe os parabéns, claro.

Voltou a vida. E eu rio-me de tudo. Faz-me rir eles terem medo de puxar o cão lá para fora porque ele rosna e ferra o dente. Só eu e o mais novo é que conseguimos. Eu porque aprendi que os cães são como as crianças, levam-se a bem ou mordem; e o mais novo porque é criança assim como o cão que também é baixinho. Deste tipo de coisas há aos molhos nesta casa. Sabem que eu fecho a caldeira quando os banhos demoram, assim como o meu pai desligava o esquentador? A água fica fria e eles nem piam. "Já pode ir outro!". É das minhas manias preferidas e lembra-me o meu pai. Também me rio com a história do mais novo que se chateou com um dos irmãos, pegou numa tesoura e cortou-lhe a cara numa fotografia. Quer dizer, não foi bem cortar, deu uns golpes furiosos na fotografia e furou-lhe o sorriso amarelo. A fotografia ainda está na mesa de cabeceira, como uma peça de decoração num cenário tétrico. O que nos rimos. O que tem a cara esfaqueada foi quem se riu mais.

Ainda não me chegaram os piolhos cá a casa, só as dores de garganta e o aviso da escola de que os piolhos já se fizeram ao caminho. Vêm em peregrinação assim como nós temos de ir a Fátima porque este ano já podemos. E vou mesmo. Vou de farnel, casaquinho para a noite e banquinho para o dia. Devia ir a pé, e se calhar até vou. Preciso de tempo para agradecer por tudo aquilo que me faz rir.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de