O não-competente: Aprenda a dizer não sem culpas

A utilização do “não-positivo” e do “não-assertivo” depende do contexto. Escolha o tipo de “não-competente” que mais se ajusta à sua situação.

Costumamos dizer que “não é não”. Mas será que é assim tão fácil? Concordo que pode ser simples dizer “não” mas é mais desafiante dizer um “não-competente”, que nos permite manter focados naquilo que é essencial sem desrespeitar a relação com o outro. No meu livro Aprenda a dizer não sem culpas abordo três tipos diferentes de “nãos”. Dois são competentes, o “não-positivo” e o “não-assertivo” e um outro que é de evitar, por incompetente que é, o “não-negativo”.

Começando pelo último, este tipo de não confunde a pessoa com o comportamento e, nesse sentido, é corrosivo. É exemplo disso, o caso de um líder que foi meu coachee e que decidiu trabalhar sobre um feedback que tinha dado a um colaborador seu, disse-lhe ele: “tu és incapaz, não volto a investir o meu tempo contigo, porque já te expliquei duas vezes a mesma coisa e tu não aprendes”. Questionei-o se o colaborador nunca aprendia? Perguntei-lhe também se a pessoa estava a passar por uma fase difícil da sua vida. Depois de refletir, a tomada de consciência surgiu, ou seja, não tinha explorado a situação de vida do seu colaborador antes de interagir e, para além disso, necessitava de desenvolver a empatia pelos outros, aprendendo a calçar os seus sapatos.

Uma outra variante do “não-negativo”, é quando recusamos alguma coisa apenas porque temos falta de confiança em nós próprios ou, então, quando preferimos trocar o nosso crescimento e desenvolvimento, pelo prazer de nos mantermos na nossa zona de conforto. Este tipo de comportamento é perigoso, porque nos incita a morrermos com o nosso talento dentro de nós e todos perdemos.

Mas então, o que devemos tentar evitar?

Vamos começar pelo “não-positivo”. O objetivo quando o dizemos é continuarmos focados na tarefa que estamos a realizar, desejavelmente ao serviço de um bem maior, e ao mesmo tempo mantermos uma relação positiva com os outros. É um processo de três passos:

- Passo 1: inicie o diálogo de forma positiva e partilhe o quão importante é aquilo que está a fazer para benefício de um objetivo mais abrangente;

- Passo 2: demonstre que entende aquilo que o outro sente e aquilo de que necessita no momento;

- Passo 3: empenhe-se em descobrir com o outro uma ou mais soluções habilitadoras que tenham em consideração a sua necessidade de se manter focado naquilo que é realmente importante, sem descuidar aquilo que são os sentimentos e as necessidades dos outros.

No caso anterior, do meu coachee, o “não-positivo” poderia ter sido partilhado da seguinte forma: “Obrigado por me teres procurado. Deixa-me partilhar contigo que estou a finalizar o plano estratégico para que todos possamos ter um ano exemplar. Sinto que estás um pouco frustrado porque estás com dificuldade nesta tarefa e que necessitas de te sentir útil. Quero dar-te a atenção devida e, por isso, proponho que nos encontremos amanhã às 10.00, pode ser?”.

Por fim, o “não-assertivo”, que nos ajuda a clarificar a nossa posição sem que tenhamos que a justificar, podemos ou não, explicar os motivos pelos quais estamos a agir de uma determinada forma, de acordo com a situação e com o nosso interlocutor. Utilizamo-lo quando queremos ter uma interação objetiva e respeitosa com o outro e queremos responder eficazmente a uma situação que não nos beneficia. Este tipo de “não” também é muito útil para neutralizarmos um processo de manipulação logo no início e estabelecermos limites claros, sem sermos rudes ou arrogantes. No caso do meu coachee, depois da tomada de consciência, ele desenvolveu um plano de ação. Uma das ações foi reformular aquilo que queria ter dito à pessoa da sua equipa utilizando o processo do “não-negativo”, da seguinte forma: “O teu tempo e o meu são preciosos, e parece-me que não o estamos a usar bem, hoje tenho outros temas a tratar e amanhã retomamos este tópico”.

Imagine um outro exemplo: uma amiga sua sugere-lhe que fale com o seu chefe, que é seu amigo pessoal, para que ela seja mais rapidamente promovida. Neste caso, pode usar o “não-assertivo” da seguinte forma: “Não vou fazer isso, porque não me sinto confortável em misturar relações de amizade com questões profissionais”.

A utilização do “não-positivo” e do “não-assertivo” depende do contexto. Escolha o tipo de “não-competente” que mais se ajusta à sua situação e pratique. Pode ser útil tanto no trabalho como nas relações familiares. Lembre-se que o não é uma palavra curta, mas, se for utilizada com competência, pode ajudar e evitar muitos problemas compridos!

António Sacavém é professor Auxiliar da Universidade Europeia, convidado do IPAM e no Leadership Lab da Católica-Lisbon School of Business and Economics e partner da António Sacavém Communication Academy

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