O Orçamento poucochinho

O "Orçamento bom para os portugueses e bom para Portugal" afinal parece que não é bom para ninguém exceto para quem o vê a partir de São Bento e do Terreiro do Paço.

Para os partidos que costumam aplaudir e viabilizar as opções de António Costa, é "muito insuficiente" e "para já" condenado a um chumbo capaz de provocar uma crise política na pior altura possível, pondo em risco os fundos europeus. Não fosse a inabilidade habitual de Rui Rio, a desviar as atenções para o saco de gatos em que se tornou o PSD, e era coisa para Costa já estar a hiperventilar.

De resto, para o PAN, mesmo com bombons nas touradas nos bastidores, este OE é fraco e fracassado. Às empresas não traz coisa nenhuma exceto a esperança de que algum do investimento público feito à boleia da generosidade europeia lá chegue. O PEC (pagamento especial por conta) já estava suspenso e era, na verdade, um adiantamento que faziam ao fisco. O benefício no reinvestimento de lucros implica mãos atadas durante três anos, sem poder dar dividendos aos acionistas (e financiadores) nem despedir. As medidas de apoio à economia têm o prazo de dezembro marcado a ferros, quando as empresas veem os custos a subir ao retomar obrigações financeiras como rendas e créditos adiados, sem receitas que se aproximem do nível pré-crise e com as almofadas esgotadas nos últimos 18 meses de rendimento perto de zero.

Será má vontade dos partidos e dos patrões - esses malandros que só querem explorar o povo? Mas se assim fosse, não víamos o povo na rua contra os aumentos dos preços dos combustíveis, que estão em vias de falir empresas - não apenas as de transportes mas todas as que têm de transportar produto e receber matérias-primas, com uma fatura cada vez mais cara. Uma crise que se assemelha demasiado à do verão de 2019, quando o país foi paralisado pelas empresas de transportes, desta vez em versão "queridos, vamos estragar o Natal". E que o governo acredita ter resolvido rapidamente devolvendo 90 milhões de receita fiscal recebida a mais graças à escalada de preços - o que se traduz em menos 1 e 2 cêntimos por litro no gasóleo e na gasolina até janeiro...

Se fosse má vontade de alguns, não víamos as demissões em bloco e as anunciadas greves nos hospitais, apesar de João Leão embandeirar em arco com o "enorme aumento de investimento na saúde" - que não chegará sequer para pagar o que está atrasado e recuperar algum seguimento de doenças adiado pela pandemia. Não tínhamos greves da função pública, dos bombeiros, dos enfermeiros, dos médicos, dos técnicos de emergência hospitalar, dos farmacêuticos do SNS, dos Transportes Rodoviários, da Transtejo a acontecer nos próximos dias.

Não é tudo uma desgraça neste OE. O problema é que não só não se cumpre o que o governo convenceu os únicos partidos em que se apoia para garantir a estabilidade parlamentar que sempre faria - bombons e batatinhas para a esquerda, má cara à direita - como não se cumpre as expectativas do setor público nem se garante a sobrevivência das empresas, desligando a ficha demasiado cedo neste pós-pandemia. Assegura-se o cumprimento das fasquias europeias e as contas públicas saudáveis, dá-se mais uns poucos euros por mês às famílias de classe média e nada mais.

É o retrato de um Orçamento que, em boa verdade, não é bom para ninguém.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de