O país de Costa e o dos outros

A Filipa organiza eventos - festas privadas, como a que fez no batizado da filha, mas sobretudo ações de ativação de marca, conferências, feiras, projetos de design. A empresa do marido, Jorge, onde trabalham os dois, está há mais de um ano sem poder funcionar, condenada a dispensar as oito pessoas que já empregava e com os rendimentos reduzidos a pouco mais de um salário mínimo e o extra ocasional de algum desenho que apareça. Esgotadas as linhas de apoio e a esperança de que as coisas mudem muito nos próximos tempos, a Filipa juntou-se a uma imobiliária, a ver se consegue levar mais qualquer coisa para casa enquanto a Brand Energy não volta a arrancar.

O Zé e o Luís aproveitaram o boom turístico e o renascimento de Marvila como bairro trendy de Lisboa para concretizar a aventura de um restaurante. Saiu-lhes do pelo, investiram o dinheiro que haviam ganho nos projetos de engenharia em que trabalhavam antes, as horas que deixaram de passar com família e amigos e o trabalho de reconstruir o Bar das Colunas e de o munir de comida portuguesa honesta. Estavam preparados para falhar, mas não para baixar os braços. A pandemia trouxe-lhes o que nunca podiam imaginar: zero dinheiro em caixa, portas fechadas durante semanas, meses de rendas penduradas na boa vontade do senhorio, noites sem dormir quando se viram obrigados a reduzir a equipa na proporção dos dez clientes que serviam por dia quando lhes foi permitida a reabertura. Vão-se aguentando porque não são de desistir, à espera dos turistas que vão tardando e dos alfacinhas que não levem a mal a ordem de expulsão às 22.30.

Mais sorte tem a Maria, que abriu uma esplanada junto ao mercado de Algés e mesmo agora que o governo proíbe entradas e saídas da zona metropolitana de Lisboa ao fim de semana, pode continuar a receber clientes até às 1.30. Qualquer que seja o dia. Ainda nem realizou em pleno a fortuna de ter descido uma rua, depois da ideia de fazer negócio no Restelo.

Pior está o António, a mulher e os filhos, que já vão na segunda multa de mil euros porque têm uma vizinha ali na Ajuda que tem o telefone agarrado ao pêndulo do relógio e mal bate a meia hora depois das dez da noite está a marcar o 112 para a polícia levar dali para fora aqueles que a família do Mestrias não consegue desmobilizar a tempo. Já avisaram os clientes que depois das 22.00 só servem contas - triste sina de quem não vive em festas de futebol ou eventos políticos - e de vez em quando sonham que estão ao serviço dos turistas britânicos.

E assim continua a vida no burgo, sujeita aos efeitos das decisões do governo de António Costa, sem questão, sem entraves ou sobressaltos. Só os alertas do Presidente, de que os contágios têm de ser pesados com a vacinação, com os casos graves e com o estado de saúde da economia no outro prato. Talvez o primeiro-ministro tenha tempo para pensar nisso enquanto for a caminho da Alemanha, onde irá hoje para assistir ao jogo de Portugal, em Munique. Que de Lisboa não se pode sair, mas do país parece que sim. Sobretudo quando se julga estar moral e fisicamente acima das regras que se impõe aos demais portugueses e não se dá importância ao exemplo dado.

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