Opinião

O país e o mundo em modo startup

Ilustração573_ 5 razões pelas quais as startups falham-05

Uma startup é uma instituição humana projetada para criar novos produtos ou serviços sob condições de extrema incerteza” (Eric Ries). Esta definição leva-me a pensar que, de repente, a covid-19 transformou o Mundo numa espécie de startup global cuja missão é recriar a normalidade sob condições de extrema incerteza. Para concretizar essa missão, e na senda de vencer esta pandemia, vemos o Mundo subitamente focado no ciclo Desenvolver-Testar-Medir, uma metodologia tão típica das startups, que agora vemos aplicada a confinamentos, desconfinamentos, e relançamentos de economia.

Mas saber lidar com as tais “condições de extrema incerteza” não está ao alcance de todos – deve ser por isso que a maioria das startups falha -, e tem sido interessante perceber como é que os vários intervenientes têm atuado no meio de tamanha dubiedade.

Alguns, talvez demasiados, especialistas (epidemiologistas, matemáticos, virologistas, economistas, entre outros), que, curiosamente, deviam ser os mais preparados para saber lidar com a incerteza, parecem baratas tontas a emitir constantes conclusões dogmáticas que destacam a sua genialidade em contraste com a estupidez dos demais. Alimentam polémicas e click-baits enquanto acenam com PHD e nomes de faculdades sonantes. É pena não terem apostado num mestrado em dever cívico, ou numa pós-graduação em honestidade intelectual.

No campeonato do populismo, em que Trump e Bolsonaro entraram como cabeças-de-série, as condições de extrema incerteza, e a constante medição de resultados, parecem incomodar bastante. É relativamente simples convencer um eleitor de que as alterações climáticas são bullshit (“como é o planeta está a aquecer se hoje está um frio de rachar?”, dizia Trump num comício), mas é bem mais difícil disfarçar valas comuns em Nova Iorque ou cemitérios improvisados em Manaus.

Os “tudólogos” do comentário televisivo, e do comentário nas redes sociais, também se dão mal com a incerteza. O seu modus operandi – mostrar firmeza inabalável e sabedoria superior sobre qualquer tema – coloca-os constantemente fora de pé neste mar de imprevisibilidade. A maioria dos comentadores, e os opinadores de facebook, raramente assume que é necessário mais tempo para tirar conclusões sobre o que foi bem, ou mal, feito, preferindo, num estilo trauliteiro, precipitar-se com opiniões autoritárias que lhes massajam o ego com likes.

A generalidade da classe política portuguesa tem surpreendido com bons exemplos na forma de atuar, e comunicar, em tempos de extrema incerteza. Costa e Marcelo têm vindo a assumir frontalmente as dúvidas e os receios, explicando aos portugueses, de forma compreensível e lógica, que as decisões para combater a pandemia são difíceis, podem correr mal, e que única forma é implementar, testar, medir e, se necessário, voltar atrás, trazendo para cima da mesa um processo iterativo tantas vezes espezinhado no meio de ideologias dogmáticas. Para além da incerteza, a velocidade alucinante com que tudo acontece acaba por ser uma novidade para os políticos e decisores.

Nas crises anteriores era tudo mais lento: o problema, o impacto, as soluções, e os erros. Desta vez é diferente, estamos em fast-foward, uma espécie de versão triste da música frenética do Benny Hill. Em duas semanas já tínhamos dados precisos do impacto nos pedidos de subsídio de desemprego nos USA, e o caso das medidas do lay-off simplificado é também exemplo desta velocidade ação-reação: passado poucos dias já tínhamos dados, concretos e objetivos, que demonstravam erros nas medidas implementadas, levando Siza Vieira prontamente assumir o problema. Que no pós-pandemia se mantenha a boa prática de escrutínio rápido, sério, baseado em dados rigorosos, e de respostas, também rápidas e honestas. A demagogia, a “chico-espertice”, e o dogmatismo, podiam ficar para sempre nos cuidados intensivos.

Estamos perante um vírus tem um poder destruidor. Mas também tem um enorme poder catalisador, que podemos, enquanto sociedade, aproveitar ao máximo para modificar comportamentos e acelerar evoluções que nos permitam viver melhor num futuro repleto de incertezas. Esta startup somos todos nós, e não pode falhar.

André Dias é managing partner na Mapidea

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