O país visto da bolha e decidido na bolha

Queremos incentivar o uso de transportes públicos, mas somos incapazes de pôr autarquias vizinhas a conversar pela integração e complementaridade de condições que permitam evitar, por exemplo, os mais de 300 mil carros que diariamente entram em Lisboa. Apregoamos a eletrificação da economia, mas criamos leis que castigam quem opta por veículos híbridos, empurrando-os para os que se movem a combustíveis fósseis. Queremos cortar o custo destes, mas mantemos impostos brutais no seu preço - como queremos que os patrões subam salários, mas penalizamos o valor que chega aos trabalhadores com uma carga fiscal brutal. Queremos incentivar a iniciativa privada, mas temos cada vez mais pessoas a engordar a máquina pública. Queremos captar indústria e investimento para o país, mas mudamos constantemente as regras a meio do jogo, complicamos licenciamentos e revoltamo-nos contra os impactos dessa mesma indústria. Queremos baterias, queremos produzir e exportar com mais-valia para o resto da Europa, mas minas e fábricas de lítio aqui, nem pensar. Queremos energias renováveis, mas sem estragar a paisagem, sem barragens, sem painéis solares que aquecem o ambiente e sem aerogeradores que estraçalham passarinhos. Queremos atrair talento qualificado para o interior, mas não asseguramos que essas regiões sequer tenham serviços básicos de saúde, educação e infraestruturas digitais.

Somos um país de contradições e isso não seria péssimo se servisse para gerar discussão aberta e construtiva, pensamento sobre o que queremos que seja Portugal; em vez de apenas motivar recuos a cada decisão tomada porque há alguém que não concorda; se pesássemos argumentos e estudássemos projetos e realidades antes de os lançar no terreno.

Acontece que toda a discussão e toda a decisão estão concentradas entre o Terreiro do Paço e a Assembleia da República, cujos deputados há muitas décadas deixaram sequer de conhecer, quanto mais representar, as regiões pelas quais são eleitos. E a reação tomada por real - aplauso ou contestação - é limitada ao que se vê daquelas janelas.

Acontece que esse pequeno círculo distorce brutalmente o que está para lá da bolha. Cegos e surdos ao que é a realidade, ao que são as necessidades e as angústias de quem vive pelo muito mais vasto território português, decide-se em Lisboa, protesta-se em Lisboa, discute-se em Lisboa e impõe-se em Lisboa o que em Lisboa se acredita ser o melhor para o resto do mundo português. E demasiadas vezes isso está bem mais longe da realidade local do que a distância física que separa a capital do resto do país.

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