Opinião

O pecado original da investigação

Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens
Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens

Políticas de investigação nas universidades continuam ditadas pelos recursos humanos e materiais que cada uma possui e não pela necessidade do mercado

Sabe que a despesa em investigação realizada pelas universidades portuguesas, em percentagem do PIB, é superior à média comunitária? Sabe que essa percentagem é, aliás, superior à registada em países como a Alemanha, a França ou o Reino Unido? Que é o dobro da que se verifica em Espanha, Irlanda e Itália? E que, apesar da excelência em termos de publicações científicas, a valorização dos resultados de I&D é das mais baixas da Europa?

Comecemos pelo princípio. A investigação que se realiza em Portugal tem muito boa qualidade. Para isso contribuem, em especial, as instituições de ensino superior bem como as empresas que, a partir de meados da década passada, começaram a afetar de forma significativa e sustentada verbas à produção de conhecimento e criação de novas tecnologias. Sobre isto não há qualquer dúvida.

Outra coisa é o impacto que essa produção de conhecimento tem no desenvolvimento do País através da criação de valor económico e social. É um facto que as universidades e politécnicos – em especial na esfera pública – têm vindo a desenvolver políticas no domínio da inovação e empreendedorismo. Não vou citar casos concretos, mas temos ótimos exemplos de gabinetes de transferência de tecnologia, de incubadoras e de parques de ciência e tecnologia com resultados muito significativos. Só que o “significativos” é por comparação com a situação inicial.

Veja-se o que se passa com a propriedade intelectual. O número de patentes registadas por 100 mil habitantes por entidades portuguesas é ridículo face à média comunitária. E o mesmo acontece com outros indicadores de valorização do conhecimento.

Tudo isto tem uma causa: as políticas de investigação nas nossas universidades continuam a ser ditadas pelos recursos humanos e materiais que cada uma possui, bem como pelo acesso a fontes de financiamento de projetos, e não pelas necessidades do mercado.

Sei que produzir ciência não é a mesma coisa que produzir automóveis ou calçado. Sei que a chamada orientação para o mercado tem, naquele domínio, contornos específicos em qualquer parte do mundo, mormente nos países que mais investem em I&D. Mas também sei que, em geral, as universidades portuguesas estão ainda demasiado viradas para dentro.

Produzir ciência sem uma adequada visão externa e depois (no sentido temporal do termo) pedir às estruturas de inovação que sejam capazes de uma valorização efetiva do conhecimento é tão descabido como aquela empresa que desenvolve produtos olhando exclusivamente para os seus recursos e depois pede ao responsável de marketing que faça milagres para vender – muitas vezes aquilo que o mercado não quer!

Em suma, a investigação que se realiza em Portugal precisa de marketing. Não apenas na perspetiva estrita da divulgação de ciência, mas porque deve, desde logo, ser também orientada para o mercado e não apenas para servir as instituições. Para isso exige-se uma mudança da cultura organizacional, com formas de gestão mais abertas ao exterior e políticas de avaliação do mérito e do talento que valorizem devidamente o contributo efetivo dos professores e investigadores para o desenvolvimento económico, social e cultural do País e da comunidade.

 

Carlos Brito, professor da Faculdade de Economia – Universidade do Porto

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