Opinião

O peso do Turismo na balança comercial dos produtos agro-alimentares

Fotografia: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens
Fotografia: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

O turista médio gasta em “comidas e bebidas” cerca de 20% dos seus gastos globais nas deslocações

Escassos anos atrás diversos responsáveis políticos e associativos do sector alimentar consideravam que, num prazo de poucos anos, Portugal teria a sua balança comercial agro-alimentar equilibrada, o que manifestamente não está a acontecer.

De facto, entre 2008 e 2018, decorridos que foram onze anos, o déficit da balança comercial dos produtos agro-alimentares, onde por facilidade se incluem as bebidas e o tabaco, por exemplo, baixou apenas 5%, atingindo 3,9 mil milhões de euros em 2018, o que resultou de importações no valor de 11 mil milhões (8,3 em 2008), representando um acréscimo de 33%, e de exportações de 7,1 mil milhões (apenas 4,2 em 2008), significando aqui um aumento muito substancial de 69% no período em referência.

No longo período referido é interessante relevar os grandes aumentos das importações destes produtos, que representaram 15% das importações totais em 2018, com destaque para o pescado (+52%), frutas e vegetais (+56%), sementes e frutos de oleaginosos e gorduras desses produtos (+23%), produtos em conserva de carne e pescado (+72%) e tabaco (+245%).

Em contrapartida, nas exportações, que representaram 12,3% do total em 2018, os maiores aumentos registaram-se no pescado (+75%), frutas e legumes (+146%), azeite e outras gorduras animais e vegetais (+144%), produtos em conserva de pescado e carnes (+44%), vinhos e bebidas em geral (+22%) e tabaco (+63%).

Perante este panorama de suposto falhanço das propaladas metas do rápido equilíbrio da balança comercial destes produtos, mau grado os grandes esforços e sucessos registados na actuação dos poderes públicos e dos empresários do sector, torna-se imperioso constatar, o que frequentemente é esquecido, que a grande explicação para o sucedido tem a ver com os impactos nos consumos internos de produtos alimentares dos fortes surtos de turismo, que tanto têm vindo a beneficiar a economia nacional como um todo.

Bastaria admitir, por exemplo, que o turista médio gasta em “comidas e bebidas” cerca de 20% dos seus gastos globais nas deslocações para termos uma explicação para cerca de 4 mil milhões de euros de consumos internos adicionais, ou seja, mais do que o déficit indicado para a balança comercial destes produtos em 2018.

Na realidade, esses impactos do turismo acabam por se reflectir, nuns casos, em produtos alimentares e bebidas que, noutro contexto, poderiam ser exportados, e, noutros casos, em acréscimos de importações de produtos em que temos carências na oferta interna, como são os casos manifestos do pescado e das conservas, leite, frutas e legumes e certas bebidas.

 

António Duarte Pinho, economista e ex-conselheiro técnico na REPER/Bruxelas

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