O pior cego...

Entre 2014 e 2019, a Harvard Business Review (HBR) publicou uma seriação dos melhores executivos empresariais. No início, só o desempenho financeiro contava e Jeff Bezos era o melhor. Depois, alargaram os critérios e incluíram a sustentabilidade ambiental, a responsabilidade social e a governança da empresa, em geral (designados ESG, na gíria). E Bezos nem nos 50 primeiros ficou. As listas, porém, eram dominadas por homens e brancos. As críticas levaram a HBR a cessar a sua publicação. Evoluções e sinais de tempos que vieram para ficar.

Tempos que só agora chegaram para alguns e bem mais cedo para outros. Em 1986 foi criado o Institute of Business Ethics (IBE) que, como o nome indica, liga dois temas, negócios e ética, que muitos ainda hoje consideram antinómicos. Desde 2005, o IBE publica, a cada três anos, um trabalho que reflete a forma como os trabalhadores percecionam as grandes questões éticas no seu trabalho. O último, com dados para Portugal, foi divulgado pelo Fórum de Ética da Católica Porto Business School esta semana. Com base numa amostra representativa para cada caso, estudaram-se 13 países. O índice agregado coloca-nos em último lugar, com os trabalhadores portugueses a serem particularmente críticos quanto à forma como acham que os gestores lidam com as eventuais denúncias, quer em termos de (não) consequências, quer de presumíveis retaliações. Razões, talvez, para serem os que menos denunciam comportamentos não éticos. O relatório é rico e uma análise mais completa ficará para outra ocasião.

Hoje, vale a pena referir que este resultado está em linha com o que seria obtido se, em outros estudos sobre as práticas de gestão geral, fosse usada a mesma amostra de países. É cada vez mais consensual que a nossa baixa produtividade está associada não só à baixa qualificação na base como às baixas qualificações no topo e, sobretudo, a fracas práticas de gestão. Era importante que tal fosse reconhecido pela comunidade empresarial e tornada uma prioridade de atuação. Como diz o povo, o pior cego é o que não quer ver.

Alberto Castro, economista e professor universitário

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