O pior imposto

A inflação, quando muito alta, é o imposto mais duro, implacável e desigual de todos porque penaliza sobretudo e muito mais os consumidores, trabalhadores e pensionistas mais pobres.

Quase tão antigos quanto a Humanidade sedentária, os impostos foram criados para gerar receita com base num ascendente de senhoriagem, de domínio e de soberania, mas também começaram desde logo a definir fronteiras entre territórios, níveis de competitividade, a sinalizar quem era o mais forte.

Os impostos são bons porque financiam bens públicos e universais, como Saúde e Educação de elevada qualidade, por um preço acessível, abrangendo os que nunca poderiam pagar por eles, os mais pobres. São bons porque podem convencer empresas e investidores a escolher e a apostar num determinado país, a criar empregos. São bons porque, na medida certa e havendo eficiência, evitam o recurso à dívida para pagar a despesa.

Os impostos são maus quando não são progressivos e agravam as desigualdades, quando falham o alvo consecutivamente e incidem com maior força sobre os mesmos de sempre, as empresas mais pequenas e as famílias da classe média. Quando deixam escapar os ultra ricos e colocam em causa o funcionamento da Justiça e do Estado de Direito. Quando são altos e o excesso se esvai através de práticas corruptas, criminosas; ou então legais, mas abusivas e engenhosas.

Mas há o imposto mais cego e desigual de todos. Este também nasceu há milénios sem que ninguém lhe desse um nome. É um imposto silencioso, cobrado minuto a minuto. O seu nome é inflação. Adormecida há décadas pelo mau uso do dinheiro abundante (que escoou para territórios pouco ou não produtivos, como off-shores) e pelo deslocamento das forças produtivas globais para territórios ultra baratos e de salários muito baixos (como China, Índia e sudoeste asiático), alguns temem hoje que a inflação esteja de regresso. Temem um ajustamento de contas e de preços.

Com o mundo encharcado em dinheiro super barato (dos bancos centrais) há tantos anos, os incentivos a um regresso ao antigo normal também parecem não estar a funcionar lá muito bem. Os mercados tradicionais tardam em reagir e há novas coisas a acontecer: algumas puxam a inflação para cima, outras para baixo. Os preços também estão cada vez desiguais entre si.

Nos Estados Unidos, a inflação atingiu um máximo de 13 anos. Na Europa, a situação não é preocupante, mas há problemas no custo de vida, que envolvem a habitação, a saturação e o encarecimento dos centros das cidades, a instabilidade dos empregos que impedem muitos, sobretudo os mais jovens, de beneficiar das condições de crédito historicamente vantajosas.

A inflação, quando muito alta, é o imposto mais duro, implacável e desigual de todos porque penaliza sobretudo e muito mais os consumidores, trabalhadores e pensionistas mais pobres. Quem menos rendimento tem por mês, maior esforço tem de fazer para comprar e cumprir os consumos básicos como alimentação, habitação, despesa com transportes, saúde, educação. Para poupança costuma restar pouco ou quase nada.

A inflação também é um imposto terrível para os aforradores, para quem poupa de forma clássica, para quem tem o dinheiro em depósitos e em fundos de pensões conservadores.

A sua imprevisibilidade também perturba os investidores em ações.

No longo prazo, a inflação desvaloriza as moedas. Ajuda quem exporta, mas penaliza as economias pequenas, abertas e mais dependentes do exterior em termos de capital, energia e tecnologia.

Mas temos hoje razões para temer o regresso deste imposto que agrava a pobreza? O Banco Central Europeu parece estar a preparar-se para uma subida da inflação, é verdade, mas enquanto mandar a Alemanha, os europeus podem contar com muita energia para manter os preços controlados.

Em todo o caso, há pressões que estão a fazer subir inexoravelmente os preços (ainda não sabemos se pontuais e cíclicas, se mais estruturais).

A perturbação na oferta e disponibilidade de matérias-primas que está a ser uma pedra na engrenagem em tantas fábricas por esta Europa fora. O esgotamento do transporte marítimo de mercadorias.

O petróleo, cujo preço afundou de tal forma com a pandemia, que várias operações de produção foram suspensas ou até temporariamente abandonadas por razões de (falta de) rentabilidade, o que tem feito subir o custo dos combustíveis de forma perigosa.

Os mercados imobiliários, grande refúgio de tantos investidores, que fogem dos juros zero, fazendo explodir o custo da habitação, uma das maiores despesas famílias (vale quase metade ou mais de um orçamento familiar em alguns países).

O princípio do fim do "el dorado" dos salários baixos que foram os mercados asiáticos, nas últimas décadas, onde estão assentes os enormes motores da economia global.

Contra estes, há fatores que ajudam a travar os preços, é claro. A informatização e robotização de vários segmentos da economia (com substituição de empregos humanos); a fragmentação das relações laborais, a ascensão dos serviços baseados em internet e o menor poder da contratação coletiva e dos sindicatos; a adoção do teletrabalho, que tira alguma pressão aos transportes e a alguns consumos fora de casa.

Mas tudo somado, sabemos que o antigo mundo, mais gastador e menos amigo da eficiência, ainda domina e suplanta o novo e incerto paradigma. Portanto sim, a inflação está a regressar paulatinamente. Bateu-se no zero e desceu-se abaixo dele com a ajuda dos bancos centrais e a estocada da pandemia. Mas nenhum vírus dura para sempre. Quando a cura dominar, a inflação espreitará outra vez.

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