Opinião: Ricardo Reis

O poder de união do futebol

"O futebol pode trazer consigo a violência das claques, a corrupção dos dirigentes, ou a incivilidade dos comentadores (...)"

Esta semana começa o campeonato mundial de futebol. Infelizmente, o futebol nacional tem sido fonte de escândalos, vergonha, e divisão nos últimos tempos. Tornou-se comum ler e ouvir pessoas que pedem desculpa por gostarem do jogo apesar de verem nele fonte de problemas que contaminam a sociedade e a política. Tal como comer doces dá prazer mas faz mal aos dentes, gostar de futebol seria algo de que se devia ter mais vergonha do que orgulho.

Felizmente, não tem de ser assim. Nestas alturas de competições internacionais é visível a união nacional que a equipa das quinas provoca. Em alguns países isto terá sido talvez bem importante: uma narrativa comum na Alemanha afirma que a sua equipa, a Mannschaft, foi um símbolo importante de expressão de orgulho nacional num país em que as expressões mais comuns de nacionalismo no pós guerra eram mal vistas ou mesmo perigosas. O filme Invictus retrata o uso por Nelson Mandela da equipa de râguebi sul-africana para criar união entre as raças no seu país.

No resto de África, esta faceta do futebol é possivelmente ainda mais importante. Um dos enormes desafios para o desenvolvimento do continente africano são as enormes clivagens étnicas e linguísticas dentro de cada país, que estão na fonte de conflitos e guerras civis constantes. Divididos e misturados por fronteiras arbitrárias definidas pelos colonizadores europeus, em muitos países africanos faltam experiências comuns que unam as comunidades no mesmo barco e as levem a cooperar e colaborar no desenvolvimento do país. O futebol pode ser uma dessas experiências.

Três economistas, Depetris-Chauvin, Campante e Durante, usaram dados e econometria para testar estes efeitos. Focando-se nos jogos das equipas africanas entre 2000 e 2015, eles compararam as atitudes dos africanos na resposta a inquéritos sobre identidade nacional e desconfiança de outras etnias. Nos inquéritos, quem responde às perguntas nos dias a seguir a uma vitória da seleção num jogo importante, em comparação com quem reponde nos dias antes do jogo, revela um sentimento menos forte de identidade étnica em vez de nacional, e uma maior propensão a confiar nos outros. Já as derrotas ou empates, ou os jogos amigáveis, não têm qualquer efeito. Os jogos contra rivais históricos têm um efeito mais forte.

De seguida, os investigadores compararam países cujas equipas, no último jogo de qualificação para a taça das nações africanas (CAN) não tinham a presença no torneio garantida. Nos países que se qualificaram à rasca, nos 6 meses seguintes, a ocorrência de episódios de conflito político violento diminuiu significativamente em comparação com os outros que falharam no último jogo.

O futebol pode trazer consigo a violência das claques, a corrupção dos dirigentes, ou a incivilidade dos comentadores. Mas também pode trazer união nacional, sobretudo onde ela é mais precisa, em países divididos e propensos a guerras civis. Podemos ter orgulho no efeito que o futebol tem na sociedade.

Professor de economia na London School of Economics

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