O político twitter

Uma notícia da Bloomberg revelava que os técnicos do FMI que estão a negociar os detalhes do acordo que os gregos assinaram acham que a Grécia é o cliente mais difícil com que já alguma vez lidaram.

Feitio de economista, sempre assumi que Tsipras e Varoufakis eram pessoas inteligentes e racionais com uma estratégia clara, se bem que arriscada, para negociar com os parceiros europeus. Mas hoje, sinceramente, começo a ter dúvidas.

Varoufakis dá uma entrevista dia sim, dia não, e em todas elas diz que foi mal interpretado. Se na segunda-feira diz que milhões de gregos passam fome numa crise humanitária sem precedentes, na terça-feira posa para uma revista do jet set do seu “ninho de amor” com mesa farta. Se na quarta-feira faz uma proposta razoável sobre o uso de fundos do BEI, na quinta-feira propõe esquemas para extorquir dinheiro dos parceiros europeus de forma escondida usando o BCE. Se na sexta-feira elogia Angela Merkel, no sábado insulta de forma irreversível o ministro das finanças Schaeuble. Se no domingo diz que com o Syriza tudo será diferente, na segunda-feira anuncia que todas as promessas eleitorais do Syriza estão suspensas. Se na terça-feira faz discursos grandiosos com suposto carisma intelectual, na quarta-feira o seu ministério é incapaz de concretizar os mais básicos detalhes técnicos de implementação de qualquer reforma. Se na quinta-feira promete que quer criar alianças na Europa, na sexta-feira bufa para a imprensa princípios de acordo confidenciais. Se no sábado acusa o BCE de “asfixiar” a Grécia, no domingo diz que as políticas monetárias expansionistas não têm efeito para além de criar bolhas especulativas, e na segunda-feira implora que o BCE empreste mais dinheiro aos bancos gregos. Se na terça-feira, Varoufakis diz que a Grécia está “insolvente” e “na bancarrota”, na quarta-feira jura que não há razão para haver uma corrida aos depósitos na Grécia.

Como aconselhava um membro do parlamento europeu eleito pela Syriza “…menos entrevistas e mais trabalho. Os tempos requerem seriedade, soluções e resultados palpáveis”.

Durante 20 anos, Varoufakis foi um professor com uma carreira académica sem nenhuma distinção. Há pouco mais de uma década, descobriu o twitter e os blogues, e encontrou a celebridade e o sucesso. Varoufakis é um político/economista twitter: precisa de estar sempre a dizer alguma coisa, curta e bombástica. O que é importante é ser retuítado e atrair atenções, não implementar políticas concretas. A quantidade é que conta, a coerência nem tanto. Vale muito o estilo “cool”, vale pouco a substância estar certa. O sucesso mede-se pelo número de seguidores e pelas referências nos media, não por melhorias nas condições de vida dos gregos.

Varoufakis é inteligente e racional. Só que talvez o seu objectivo não seja o bem-estar dos gregos. Antes, é aumentar a sua celebridade. Já estávamos habituados a este comportamento dos políticos populistas. São os moldes da geração twitter que são novos.

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