O preço a pagar pela inovação da Amazon

O mercado livre não se auto-regula e a tecnologia não irá ajudar ninguém sem a reimaginação dos modelos de trabalho com foco nas pessoas

No final de Agosto, o CEO e fundador da Amazon, Jeff Bezos, tornou-se na primeira pessoa de que há registo a chegar a uma fortuna de 200 mil milhões de dólares (cerca de 171 mil milhões de euros). É uma quantia inimaginável. Alguém com uma riqueza desta magnitude pode dar-se ao luxo de falar para o congresso dos Estados Unidos com a nebulosidade de um patrão desconectado. Não sabe, não tem conhecimento, não se recorda. Apesar das repetidas investigações e das acusações dos governantes, pouco mais que umas multas pífias aconteceu à Amazon, e muito menos ao seu magnata.

Não é por acaso que uma das empresas mais poderosas do mundo tem conseguido escapar à mão dos reguladores e ocupar um espaço estranho no discurso público. Por um lado, há a noção de que a gigante de Seattle concentra demasiado poder no mercado e trata a chicote os comerciantes que dependem dela. Por outro, não conheço um único consumidor que nunca tenha comprado nada na Amazon e que não se deslumbre com as infinitas possibilidades de compra, a rapidez da entrega e a facilidade de trocas na Amazon. As pessoas querem que a empresa de Bezos opere com idoneidade, mas não se as vantagens da plataforma forem perdidas.

Agora que o grande shopping virtual do mundo anunciou o Prime Day para 2020 – na verdade, dois dias, 13 e 14 de Outubro – estas realidades colidem em cima dos trabalhadores dos armazéns da empresa. O Prime Day é um par de dias com ofertas e descontos exclusivos para os assinantes do serviço Prime, que entre outras coisas permite entregas gratuitas num ou dois dias e dá acesso à plataforma de streaming da empresa. Custa 12,99 dólares por mês ou 119 por ano nos Estados Unidos, onde a gama de serviços é mais completa que em qualquer outro mercado, mas a Amazon Espanha oferece Prime por muito menos (3,99 euros ao mês ou 36 euros por ano).

O Prime Day, tal como a Black Friday e as compras natalícias, origina um pico substancial das vendas e uma sobrecarga da logística da empresa. Com o investimento da Amazon em inteligência artificial e robótica, seria de esperar que a tecnologia facilitasse a vida aos trabalhadores dos armazéns e que a eficiência do processo mecanizado fosse usada para aliviar os profissionais humanos. Mas na Amazon, de acordo com múltiplas investigações e os próprios relatórios internos, não é nada disso que acontece.

Na empresa do homem mais rico do mundo, os picos de vendas – como o Prime Day – equivalem a um aumento significativo dos acidentes de trabalho dos empregados, que é agudizado nos armazéns onde circulam mais robôs. Quanto maior a presença de tecnologia, maior as probabilidade de incidentes. A ascensão das máquinas, ao contrário do que nos foi vendido, não está a contribuir para tornar os humanos mais seguros no trabalho.

Na verdade, as histórias que vêm saindo dos armazéns da Amazon nos últimos anos são de medo e mazelas. Pouco antes do Natal de 2019, uma investigação da Reveal/Center for Investigative Reporting revelou que o número de acidentes graves no armazém de Tracy, vale central da Califórnia, quadruplicou após a introdução de robôs. A pesquisa examinou 28 armazéns da Amazon em 16 estados norte-americanos e descobriu que as instalações com robôs reportam mais acidentes de forma consistente, encontrando uma ligação estreita entre as máquinas e os problemas de segurança reportados.

Os acidentes frequentes não se devem apenas à necessidade de humanos trabalharem lado a lado com maquinaria pesada e de grande porte. O que também motiva o aumento dos acidentes é que a tecnologia é usada para aumentar os padrões de produtividade dos humanos, que são controlados ao segundo. Exigem-lhes uma rapidez repetitiva com métricas insanas, como inspeccionar e digitalizar 1.800 pacotes por hora, que se não forem cumpridas levam o empregado a ser avisado ou despedido.

As petições que os próprios trabalhadores assinaram e entregaram às chefias no passado não resultaram em grandes mudanças. De acordo com os relatórios entregues pela Amazon à SHA (Occupational Safety and Health Administration), a taxa de acidentes nos armazéns da empresa são o triplo da média nacional. E há mesmo um esforço para reduzir o número de incidentes reportados – não o número de acidentes que realmente acontecem e deixam mazelas nos funcionários. Uma peça de rádio da NPR indicou, inclusive, pressão sobre os enfermeiros e médicos que tratam os trabalhadores acidentados para minimizar os tratamentos, de forma a que os incidentes não tenham de ser reportados.

Estes problemas espelham uma cultura agressiva que já é conhecida na Amazon e que só piorou com a pandemia de covid-19, levando a múltiplos surtos em armazéns e um grupo de trabalhadores a processar a empresa.

Como é que nós, consumidores e cidadãos, podemos fazer alguma coisa por isto? Pedir às pessoas que não comprem na Amazon é difícil, dada a conveniência do serviço e ao facto de que muitos produtos só estão disponíveis na sua plataforma. É, mais uma vez, necessário manter a pressão sobre os legisladores que até agora deixaram impunes as grandes tecnológicas, “big tech” como lhes chamou Elizabeth Warren.

E que isto sirva também de um lembrete de que o mercado livre e sem regras não se auto-regula, e que a tecnologia não irá ajudar ninguém se os modelos de trabalho não forem reimaginados. Pelo contrário. Não é só uma questão de acumulação de riqueza – tenho a certeza que para Jeff Bezos tanto dá mais milhão ou menos milhão. É esta cultura da ganância pela ganância, do capitalismo totalitário, da vitória a qualquer custo que se cultiva nos Estados Unidos que tem de ser refreada.

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