O problema do não

Miguel Esteves Cardoso é que tinha razão, todas as crónicas deviam ser sobre o problema: é tudo sobre um problema qualquer. O nosso problema de pais são os filhos, está claro, e o grande problema dos filhos é o não. Dizer-lhes que não é todo o retrato de uma geração de pais e nada tem que ver com os coitados dos filhos. E são várias as razões que se prendem com esta incapacidade de dizermos que não. A primeira e a mais estúpida de todas é não conseguirmos ver os filhos sofrer, não estamos habituados a fazer isso aos animais quanto mais aos filhos. Negar-lhes um desejo é provocar-lhes sofrimento e isso dói-nos. Tira-nos a paz. Já nos chega o dia-a-dia, as guerras no mundo, a pandemia e as incertezas das globalização para nos tirarem a paz, por isso, ao menino dizemos que sim.

A outra razão de peso prende-se com a nossa autoestima, com uma questão de segurança interior. Lembram-se quando os vossos pais não vos deixavam sair ou não vos compravam aquilo que pediam e vocês os imaginavam emulados aos gritos e em dor, ao mesmo tempo que, no silêncio da raiva, os insultavam com os últimos palavrões aprendidos? Pois nós não temos autoestima suficiente para sermos odiados desta forma. Queres que te compre essas calças? Claro que sim. E queres ir à festa com essas calças justas e rasgadas no rabo que custam 100 euros? Óbvio. E também queres dinheiro para ires a essa festa apesar de teres um teste de matemática amanhã? De quanto precisas? Tudo desde que continues a gostar de mim. Quem é a melhor mãe do mundo? A nossa autoestima de pais anda pelas ruas da amargura. Já apanhei pais a perguntar a crianças de dois anos se gostam deles: "Gostas da mamã?" O que é um desafio emocional perigoso, ao nível da roleta russa.

Aquilo que também nos leva a não aceitarmos o não como resposta é a trabalheira que dá. O "não" dá invariavelmente azo a discussão, birra, ou pelo menos a uma conversa desagradável, conforme a idade. Enquanto que o "sim" é adjudicação direta, sem negociação, caderno de encargos, condições, nada; é sim limpinho. Mãe, posso? E já está. Não se perdeu tempo, não deu trabalho, não discutimos, ninguém se chateou e ficamos todos felizes. Clarinho como água. Cada um vai à sua vidinha e a relação entre pais e filhos mantém-se imaculada. Dizer não, por outro lado, é perigoso, tira-nos tempo e é pouco produtivo. Uma pessoa arrisca-se a que a criança faça uma cena no meio do supermercado e que se tenha de partir para a coação física ou para uma discussão. "Mas não porquê?!" E de repente estamos aos gritos com um adolescente quando devíamos estar a fazer outra coisa descontraída ou mesmo produtiva, em prol do bem comum, da sociedade, vá.

Por fim, há um não de que ninguém fala - que é o sim disfarçado de não. É quando o não acaba em "então, está bem, vai..." É quando nos armamos em educadores, em profissionais do ofício, em seguidores do não e no fim depois de muito desgaste, discussão e trabalho, cedemos. "Mas só desta vez." Este é o pior sim de todos. É o sim cobardolas, armado em bom, mas que é medricas. E o não, caros pais, é coisa de gente grande. É hoje uma ideologia e não mera teoria, tal é a crise do não.

Jurista

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