Opinião

O problema não são as sedes

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Os empreendedores sabem que quando as companhias constroem sedes demasiado sumptuosas isso é mau sinal

O Boston Consulting Group divulgou no mês passado o seu relatório sobre inovação referente a 2019. A Alphabet/Google surge como a companhia mais inovadora do mundo, a que se seguem a Amazon e a Apple. A grande novidade deste ano prende-se exatamente com o facto de a empresa fundada por Steve Jobs ter caído para o terceiro lugar, após 14 anos consecutivos na liderança do ranking. Também digno de registo é o facto de na lista das 50 empresas mais inovadoras, as fast movers serem europeias: a Adidas sobe da 35.ª posição, em 2018, para o 10.º lugar, em 2019; a SAP passa da 42.ª posição para a 28.ª; e a Philips sobe 20 posições, assumindo agora o 29.º lugar.

Muito se tem escrito sobre inovação – eu próprio já o fiz aqui por diversas vezes. Sabe-se que a inovação não se restringe a produtos e processos, revestindo múltiplas formas, designadamente no âmbito dos modelos de negócio, como a Uber, a Airbnb e a própria Amazon bem ilustram.

Vou, no entanto, realçar um outro aspeto: a atitude de permanente inconformismo que leve à busca constante de novas soluções geradoras de valor, seja económico, social ou cultural. A isso chama-se cultura de inovação. Para que ela ocorra é necessário trabalhar três ingredientes básicos. Em primeiro lugar, há que desenvolver competências no uso de técnicas e métodos que potenciem o surgimento de novas ideias. Depois, há que fomentar a vontade de inovar, encorajando a ambição e a assunção do risco e não penalizando socialmente o insucesso. Por último, há que criar oportunidades efetivas de inovação dentro e fora das organizações com recurso a abordagens como o design thinking.

Sendo fatores críticos de sucesso, a falta de dinamismo daqueles ingredientes pode tornar-se num obstáculo ao desenvolvimento das empresas, por mais reputadas que sejam no domínio da inovação. A queda da Apple para o terceiro lugar do ranking do Boston Consulting Group – depois de quase década e meia de liderança – não é bom sintoma. Principalmente quando a isso juntamos a perda de quota de mercado, a quebra dos resultados… e uma sede sumptuosa como a que acabou de construir em Cupertino.

Sim, porque com toda a sabedoria feita de experiência – apesar da falta de prova científica! – os empreendedores de Silicon Valley sabem que quando as companhias constroem sedes demasiado sumptuosas isso é mau sinal. Não porque não haja meios financeiros para as construir; não porque os colaboradores não mereçam as melhores condições; mas pelo que significa em termos de falta de ideias. Sim, porque quando se gastam em headquarters somas astronómicas para além do requerido pelo normal funcionamento da empresa, acima de tudo isso pode significar que começam a faltar ideias para aplicar esses recursos no desenvolvimento do negócio.

Quem sabe se um experiente empreendedor californiano, cheio daquela sabedoria que só a vida dá, passando por Lisboa em 1993 e observando a sede da Caixa Geral de Depósitos acabada de inaugurar não tivesse pensado que a obra, por muitos apelidada de faraónica, seria o prenúncio de problemas. Porque a inovação, sendo a base da competitividade sustentável, assenta fundamentalmente numa cultura que promova a geração de valor e não tanto a construção de sedes de dimensão desproporcionada face à rentabilidade potencial. O problema não são as sedes – o problema é a falta de ideias que leva a gastar em sedes aquilo que se deveria investir no desenvolvimento do negócio.

 

Carlos Brito, professor da Faculdade de Economia – Universidade do Porto

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