Opinião: João Almeida Moreira

O PT não tem amigos

Fernando Haddad. Fotografia: REUTERS/Paulo Whitaker
Fernando Haddad. Fotografia: REUTERS/Paulo Whitaker

O PT é especialista em fazer inimigos. Mas não sabe fazer amigos. O caso é tão sério que, por causa disso, Bolsonaro será eleito presidente do Brasil.

O candidato Fernando Haddad é um académico reconhecido, adepto da moderação na política e na vida e um dos raros quadros do PT capaz de abrir canais de diálogo com todas as forças. O candidato Jair Bolsonaro, nem o mais hipnotizado dos seus militantes contesta, é tudo menos moderado e dialogante.

No entanto, Haddad tem mais rejeição – 47% dos brasileiros dizem que não votam nele de maneira nenhuma – do que Bolsonaro – vetado por 35% dos eleitores. Por aqui se mede a reprovação ao PT.

Essa reprovação é baseada, por um lado, em preconceito simples contra a esquerda e contra a política de inclusão que os governos do partido representaram.

E, por outro, na decepção dos que um dia foram seus simpatizantes ao constatarem que, uma vez no poder, o partido dançou ao ritmo da corrupção e do clientelismo tradicionais da política brasileira.

Desse modo, o PT construiu um vasto e heterogéneo grupo de inimigos.

E os amigos, onde estão eles? A pergunta, mais ou menos nesses termos, partiu de Gleisi Hoffmann, a briguenta presidente do partido, na terça-feira passada.

Onde anda Ciro Gomes, terceiro mais votado na primeira volta, ex-ministro de Lula e figura de destaque do PDT, da mesma família política? Além de um tímido “ele não”, quando perguntado se apoiaria Bolsonaro no dia das eleições, e de um “apoio crítico” da direção do partido a Haddad, nem mais um sinal da suposta amizade.

O PT pode censurar Ciro e o PDT? Pode, em parte, porque o atraso civilizacional representado por Bolsonaro exige medidas excecionais; mas não pode se levarmos em conta que Ciro, consciente da rejeição ao PT, acenou com uma lista composta por ele, como candidato a presidente, e Haddad, como candidato a vice. Como resposta, obteve não só um rotundo “não” como ainda tentativas do PT, bem sucedidas, de o isolar.

E onde anda Marina Silva, a ambientalista também ex-ministra de Lula que não passou de 1%, mas cuja voz ainda é respeitada? Além de pedir aos militantes do seu partido, o Rede, que não escolhessem Bolsonaro, disse que para ela um voto em Haddad, em branco ou nulo, tanto fazia.

O PT pode censurar Marina? Pode, em parte, porque o atraso civilizacional representado por Bolsonaro exige medidas excecionais; mas não pode se levarmos em conta que na eleição passada os tempos de antena do PT abusaram de golpes baixos contra ela, quase tão baixos como os que Bolsonaro usa agora contra Haddad por via da indústria das fake news.

E onde anda Fernando Henrique Cardoso, a father figure do PSDB, grande rival eleitoral do PT mas, ainda assim, parceiro histórico no restabelecimento da democracia brasileira? FHC já disse que Bolsonaro representa tudo o que ele não gosta mas questiona porque deve apoiar o PT só porque tem estima por Haddad.

O PT pode censurar FHC? Pode, em parte, porque o atraso civilizacional representado por Bolsonaro exige medidas excecionais; mas não pode se levarmos em conta que uma vez chegado ao poder demonizou os dois governos do PSDB, a que chamou de “herança maldita”, mesmo tendo em conta os seus indiscutíveis méritos na estabilização da economia.

Depois dos ventos semeados, o PT vai colhendo uma tempestade eleitoral perfeita na forma de 20 pontos de diferença para o medíocre e perigoso líder das sondagens. Talvez daqui a quatro ou oito anos seja a vez de Bolsonaro, um notório semeador de ventos, para dizer o mínimo, as vir a colher. Assim são a política e a história.

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