O que a CGD e o Commerzbank têm em comum? Nada.

A maior economia da América Latina é desde sempre atraente à banca internacional, mas o varejo não é interessante para um grande gestor corporate.

Caso o segundo trimestre de 2020 sirva como referência para alguma análise de investimentos, o Brasil será listado como mercado promissor. Entre outros motivos, pelo facto de que a queda no PIB (Produto Interno Bruto) do último trimestre foi a mesma sofrida pela sólida economia da Alemanha: -9,7%. Evidente que os dois países não se comparam em poder de recuperação, mas o Brasil está melhor do que Chile, França, México, Espanha, Portugal e Inglaterra, para citar poucos.

Em média, a queda do PIB mundial gira em torno de 9,9%, enquanto que o grupo dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) fecha em 0,8% - puxado pelo saldo positivo de 11,5% da China, somados aos 0,7%, também positivos, dos indianos - o Brasil, assim como o resto do mundo, negativou o PIB. A projeção para 2020 é de um recuo na economia mundial acima de 90%. Uma tragédia coletiva. Para se ter uma ideia de sua dimensão, é maior do que a Grande Depressão de 1931 ou da crise instalada ao término da Primeira Grande Guerra Mundial, em 1918.

Em detrimento desses números negativos, o Brasil vem sendo, ao longo dos últimos anos, um dos mais promissores mercados para grandes investimentos. Não por acaso figura como a nona maior economia do mundo, onde há espaço para todo tipo de negócio. A diferença cambial - um dos principais atrativos para o investidor europeu - torna esse mercado altamente reluzente.

Embora o país possua um comportamento instável na economia, as suas dimensões continentais fazem de alguns setores, nichos de sucesso, verdadeiros oásis de equilíbrio e rendibilidade. O agronegócio é um exemplo. Com enormes áreas a serem exploradas que contam com o avanço da tecnologia de ponta – o que permite produzir mais, obtendo melhores resultados a cada nova safra, com redução de custos.

Mas não está apenas na agricultura o diferencial, outra a se destacar é a de energia, onde a portuguesa EDP anda a passos largos com desenvoltura. E há mais: a indústria química, têxtil, aviação, saneamento, mineração, construção civil, siderurgia, são áreas que, mesmo diante de crises, não param de crescer. Sobretudo aquelas que produzem matéria prima e exportam para os demais continentes. Como o cenário económico nem sempre é favorável, as empresas buscam na expertise de grandes grupos financeiros uma maior segurança para as suas operações. É aí que o país brilha aos olhos da banca internacional.

Não por acaso algumas das maiores instituições financeiras do mundo têm interesse nesse mercado, entre elas está o Commerzbank, segundo maior banco da Alemanha. O banco concentra suas operações domésticas no varejo e em empréstimos a empresas de médio porte. Com a política de juros ultrabaixos imposta em 2018 pelo Banco Central Europeu (BCE), a principal fonte de receita líquida sofreu queda significativa. Mesmo considerando que o banco atenda a todos os requisitos regulatórios, isso gerou ruído no mercado e consequente queda no valor das ações da instituição.

Os membros do conselho do Commerzbank rejeitaram as críticas do regulador, argumentando que o credor obteve lucro operacional desde 2013 e o que reduziu a receita, sem negativá-la, foram obstáculos regulatórios. Desde então o banco trabalha na reestruturação de diversas áreas tornando-as mais enxutas e rentáveis. Martin Zielke, presidente-executivo que está a limpar suas gavetas para sua anunciada saída em dezembro, prometeu deixar o banco com redução de custos anuais em torno de 10% até 2023.

Entretanto, o contraponto desse desempenho doméstico é a operação fora de casa. O Commerzbank opera fora da Alemanha com alto desempenho. No Brasil, há 60 anos por meio de representações comerciais locais, decidiu, há quatro anos, instalar sua primeira subsidiária na América Latina, nomeadamente na cidade de São Paulo.

A cidade, capital financeira do país, oferece fácil conexão aos demais países da região, uma estratégia interessante para a atuação no continente - algo parecido à operação na Península Ibéria, através de seu escritório de Madrid de onde estão a atender clientes em Lisboa, Porto e demais cidades de Portugal. O core business dessas operações externas é focado nas contas corporativas, tanto de empresas alemãs já instaladas no país, como as demais europeias. E, no caso brasileiro, empresas locais que têm negócios com a Europa.

Um dos objetivos é alargar o trânsito entre Europa e Brasil com o propósito de ampliar a atuação do banco em processos rentáveis. Fortalecer a operação tanto de empresas europeias instaladas no Brasil, quanto de brasileiras em território europeu ou, ainda que não estejam fisicamente nos dois continentes, aquelas que tenham negócios de importação e/ou exportação nessa rota.

O Brasil foi uma escolha estratégica do grupo porque figura como o mais importante mercado de negócios corporativos na América Latina, e possui grandes negócios com a Alemanha e demais países do bloco europeu. O Commerzbank, que opera em mais de 50 países, entendeu que podia oferecer esse know-how como ferramenta facilitadora de negócios seguros, uma vez que colocaria o seu conhecimento global a serviço de clientes locais que queiram atravessar fronteiras com garantia e agilidade. Ou mesmo aqueles que preferem operar localmente, lastreados por uma instituição com background e solidez. Não foi uma má aposta.

A maior economia da América Latina é desde sempre atraente à banca internacional, mas o varejo não é interessante para quem se consolidou como grande gestor corporate. Entrar num mercado para disputar carteira de clientes no varejo com instituições locais consolidadas, não é o que se pode chamar de estratégia inteligente. Já agora, levar aos clientes corporate a opção de trabalhar com uma sólida estrutura financeira da Europa, isso é um diferencial de inesgotáveis vantagens competitivas.

O banco alemão tem uma operação voltada a conectar os negócios brasileiros ao mercado europeu. Portugal é um desses players internacionais do Brasil, mas o país possui uma atuação bastante pulverizada na Europa. Só na Alemanha, mais de 60 empresas brasileiras atuam. Em contrapartida, 1500 empresas alemãs estão no Brasil e o objetivo do banco é estar nessas transações a criar um ambiente de risco reduzido em suas estratégias. E, claro, melhorar seu desempenho global para as duras avaliações do BCE.

A pergunta que não quer calar é: a Caixa Geral de Depósitos (CGD) não viu isso? Diante de um mercado com tamanhas alternativas e conexões europeias, como conseguiram fazer uma gestão tímida dessa oportunidade a ponto de dispersar energia quando passaram a atender clientes particulares - ou individuais. No Brasil, a sucursal atende por Banco Caixa Geral (BCG) e tinha ao alcance das mãos um número considerável de empresas portuguesas que transitam entre os dois lados do Atlântico.

Há três anos entrevistei a diretora executiva da sucursal brasileira, Carla da Silva Pinto. Cheia de boas intenções, ela deixou a impressão de que a carreira em um banco público, por si só, não modela o executivo para voos mais audaciosos. É preciso mais conteúdo e experiência. A simpática trasmontana explicou qual seria a vocação do BCG: “Como trata-se de um banco público, devemos olhar nos olhos dos clientes e os conhecer pelo nome”. Isso é tão profundo quanto um pires.

Ela havia recém-chegado ao país para administrar a carteira de contas particulares. Diferentemente da estratégia dos alemães que, ao que parece, sabem multiplicar dinheiro. Tanto é verdade que mesmo diante de uma reestruturação, a operação brasileira do banco alemão, por ser rentável, não muda. Já o BCG, está a fazer as malas. É claro que a diferença está no comando de cada operação: uns estão a cumprir hora de trabalho para a reforma e outros a fazer a diferença no mundo dos negócios.

“Nós vamos aonde está o cliente”, ensinou à época a executiva, “a nossa relação é muito próxima. Levamos formulários à casa do cliente para os assinar. Nosso lema é: ‘estamos onde você estiver’.” É bastante poético. Mas que bom que foram tão carinhosos. Agora o BCG, dada a intimidade desenvolvida, poderá enviar mensagens pelo whatsapp a cada “amigo-cliente”, a explicar o motivo de estar em vias de encerrar as suas atividades no país e os deixar a ver navios.

Por incrível que pareça, diferentemente do resto do mundo, o banco sobrevive graças à Covid-19 - motivo pelo qual o processo de venda foi temporariamente suspenso. Mas vai ser vendido. Ao que tudo indica, a cartilha do Pequeno Príncipe não funciona nesse mercado.

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