Opinião

O que acontece no iPhone, aparece em Las Vegas

Luxor, Mandalay Bay em Las Vegas

A Apple, que costuma marimbar-se para o CES em Las Vegas, colocou um anúncio gigante a alfinetar a concorrência

Se houvesse a tradição de comer passas às doze badaladas do ano novo, os investidores da Apple estariam com elas atravessadas na garganta até agora. O início de 2019 não podia ter sido mais terrível para as perspectivas financeiras da empresa, que fez uma coisa extremamente rara: avisou o mercado de que os resultados do seu primeiro trimestre fiscal, findo a 29 de dezembro de 2018, irão falhar as metas previamente indicadas. Foi a primeira vez em 16 anos.

Na segunda semana do ano, ainda com as cabeças a andar à roda pelos efeitos dessa revelação, a marca voltou a fazer algo quase inédito. Montou um anúncio gigantesco às portas da maior feira tecnológica do ano, CES, que começa hoje em Las Vegas, a fazer um trocadilho com o mote da cidade. “O que acontece no seu iPhone, fica no seu iPhone”, pode ler-se em letras gordas a branco num fundo negro, com um outline do smartphone e o símbolo da maçã ao lado e um link por baixo: apple.com/privacy.

Eia, Apple, por esta (também) não esperávamos nós. É uma iniciativa surpreendente porque a marca não tem presença directa na feira, não costuma sequer pôr lá os pés e até há alguns anos chegava a concorrer com as manchetes ao fazer grandes anúncios no MacWorld, em São Francisco, durante a mesma semana.

O debate sobre a histórica ausência da Apple no CES já arrefeceu há muito, até porque outras empresas, como a Microsoft, reduziram bastante a sua presença (ainda se lembram quando era o Steve Ballmer a fazer a keynote de abertura? Bons tempos).

A atitude quase sobranceira da fabricante, demasiado ‘cool’ para se acotovelar entre outras marcas de electrónica, faz parte da sua imagem. Por isso, este anúncio é relevante – ainda mais quando percebemos que a Apple arranjou maneira de se esgueirar para dentro de duas das conferências mais importantes do evento, com LG e Samsung a anunciarem que as suas televisões vão suportar AirPlay e HomeKit e AirPlay e iTunes, respectivamente.

Tudo isto está relacionado com os ventos adversos que foram prenunciados na carta publicada pelo CEO Tim Cook, na semana passada, na qual explicou as várias razões pelas quais as receitas do trimestre do Natal serão mais baixas que o previsto. O lançamento do AirPlay e iTunes em plataformas rivais sinaliza a necessidade de alargar a abrangência dos serviços. E isso está ligado ao facto de mais de metade da facturação da Apple advir do iPhone: como os novos iPhones não venderam tanto quanto esperado, em especial nos mercados emergentes (China, isto é com vocês), a Apple sabe que tem de expandir um segmento que tem vindo a crescer nos últimos trimestres. Ao mesmo tempo, vai “lembrar” as dezenas de milhares de participantes no CES porque é que o seu smartphone é melhor que os outros.

Este anúncio é, de facto notável. Ocupa a parede lateral de um hotel à beira do Las Vegas Convention Center, o centro gigantesco onde se acomoda a zona conhecida como “Tech East” – é aqui que estão reunidas as inovações em inteligência artificial e robótica, impressão 3D, drones, tecnologia de condução autónoma, e, já adivinham, todos os produtos relacionados com iPhone, iPad e Apple Watch, um marketplace designado “iProducts.”

O anúncio toca numa ferida aberta que levou um banho de água salgada no ano passado. O desrespeito pela privacidade dos utilizadores pelas grandes tecnológicas ficou bem patente nos escândalos que apanharam Facebook e Google na curva, embora o fenómeno seja generalizado.

Para se ter noção de como isto é grave, estamos a falar de uma situação em que os consumidores norte-americanos já não gozam de grandes protecções. Por exemplo, posso facilmente descobrir as várias moradas, números de telefone e familiares de qualquer pessoa que resida nos Estados Unidos – há vários serviços que fornecem essas listas online, com versões gratuitas e pagas, e dá para comprar acesso aos seus cadastros. As empresas vendem as informações e números de telemóvel umas às outras, o que explica porque é que recebo constantemente chamadas fraudulentas e cartas a propor cartões de crédito de instituições com as quais nunca contactei. Nem me perguntem da quantidade de empresas que milagrosamente descobriram que eu tive um bebé.

É neste contexto que se torna ainda mais ultrajante a monetização dos utilizadores de smartphones e redes sociais. O que a Apple quer fazer é defender o seu último reduto: a marca é conhecida pela obsessão com a protecção da privacidade dos utilizadores e, como não vende publicidade, não precisa de monetizar a informação das pessoas.

A reputação não significa que a Apple é um estandarte de idoneidade ou que não há razões de queixa – afinal, quem é que hipnotizou meio mundo com estes aparelhos omnipresentes? E quem é que criou a loja de aplicações original que abriu essa caixa de Pandora?

A Apple pode não lucrar directamente com os dados pessoais, mas permite que outros o façam. Bem podem apontar para os defeitos do Android e a forma desavergonhada como a Google faz dinheiro à conta dos perfis dos utilizadores, mas não são inimputáveis. Nenhuma empresa que detém um império como a Apple, Facebook, Google ou Amazon tem grandes pedras para atirar aos telhados das outras. Agora que o grande desfile tecnológico está a começar, é bom lembrar que a única garantia de privacidade que os utilizadores têm é aquela que estabelecem – e asseguram – para si próprios.

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