O que colheu o sr. António, o que semeia o Dr. Costa 

Portugal "tem uma dívida de gratidão para com os seus agricultores e é uma palavra de estímulo e de carinho que lhes devemos". Assim falava António Costa há um ano, fazendo questão de "prestar tributo", ao lado da ministra da pasta, àqueles que tiveram de pôr de lado os seus receios "para que nada nos faltasse e que do prado ao prato tivéssemos sempre uma cadeia de abastecimento permanentemente a funcionar".

Depois do número de Dr. Jekyll e Mr. Hyde que o primeiro-ministro protagonizou em relação aos agentes do SEF (de heróis a desmantelados) e depois aos profissionais de saúde - aplaudidos quando literalmente não podíamos viver sem eles, e logo abandonados, desprezados, criticados e acusados de terem culpas no desastre do SNS e na falência da Saúde que Marta Temido levou ao coma, suportada na confiança total de António Costa -, não devia surpreender-nos a atitude que toma agora em relação aos agricultores.

Foram bestiais quando garantiram que não nos faltava comida, mas aparentemente tornaram-se bestas - que não apoiam o socialismo absoluto, que se pasmam e consideram inaceitável o desconhecimento de quem decide em Lisboa regras e medidas que é impossível cumprir no campo, que não aceitam o desmantelamento de um setor que devia ser entendido como um dos mais valiosos.

Ao lado de Maria do Céu Antunes, agora Costa já não é o governante que defende e agradece a resiliência dos agricultores. Agora é o chefe do governo que aproveita a sua condição maioritária para fazer uma regionalização à socapa que lhe permite centralizar poder e decisões longe de quem trabalha os campos. Agora é o governante que não vê razão para haver serviços de proximidade e decreta que as direções regionais podem bem acabar, concentrando todos os meios em cinco grandes centros (Porto, Coimbra, Lisboa, Évora e Faro). Agora é o primeiro-ministro que, perante a aceitação mansa da figura de corpo presente que lidera a pasta já oca, persiste no desbaste da Agricultura, repartindo postas pela Economia, Ambiente, Coesão.

Até onde poderá testar-se a resistência de um setor à beira de um ataque de nervos, abandonado à sua sorte numa crise sem precedentes, com "apoios" que seriam de rir se a situação não fosse tão triste e sucessivamente sujeito a mudanças que dificultam ainda mais a vida de quem se dedica à agricultura? Talvez estejamos prestes a descobrir. Talvez os tiques de centralismo absoluto de Costa acabem de vez com quem vive e trabalha o campo. E com o resto de nós, quando os que ainda se esforçam por trabalhar e exportar deitarem a toalha ao chão e enfim passarmos a ser maioritariamente importadores de comida no meio de uma recessão.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de