Opinião: Ricardo Reis

O que correu bem

Foto: REUTERS/Rafael Marchante
Foto: REUTERS/Rafael Marchante Pessoas, Rossio, Lisboa, Portugal

A economia portuguesa está hoje mais aberta, com mais empresas a produzirem para os mercados externos.

Este espaço de opinião começou no Verão de 2011, poucas semanas depois da assinatura o acordo de resgate com o FMI. A economia portuguesa mudou muito desde então. Para um final de ciclo positivo, convém recordar algumas dessas boas mudanças.

Primeiro, a reforma do IMI e nova lei das rendas criaram os incentivos para o investimento na renovação do parque habitacional do centro das cidades que estava adiado há décadas. No curto prazo, isto permitiu transformar o bem não-transacionável clássico, a habitação, num factor de produção para o turismo. Beneficiaram as exportações e foi possível o ajustamento das contas externas. No longo prazo, os centros da cidade estão recuperados e revitalizados.

Segundo, as exportações e as importações saltaram mais de 10% do PIB de uma forma que parece ser permanente. A economia portuguesa está hoje mais aberta, com mais empresas a produzirem para os mercados externos, e a aprenderem com isso a serem mais competitivas.

Terceiro, abrir uma empresa demora hoje 7 dias e 6 procedimentos; eram 78 dias e 11 procedimentos em 2005. Em todos os indicadores da facilidade de fazer negócios, flexibilidade laboral, ou concorrência nos mercados produzidos pelo Banco Mundial ou pela OCDE, Portugal saltou dos últimos lugares da tabela para posições acima da mediana na Europa.

Quarto, em 2011, uma fatia de 26% da população com 25 a 34 anos tinha escolaridade superior. Hoje são 34%. Nos testes PISA que tentam medir a qualidade da aprendizagem, Portugal começou no fundo no início do século e está agora acima da média dos países ricos da OCDE. Na ciência, Portugal tem mais investigadores per capita do que a média europeia. Depois de décadas de atraso, o país está a recuperar o seu capital humano.

Quinto, o capital físico foi redistribuído e reinvestido de formas promissoras. A indústria transformadora beneficiou de mais investimento ao invés dos serviços, e a fracção do investimento que vai para equipamentos, maquinaria e propriedade intelectual cresceu e muito à custa do investimento na construção.

Sexto, o desemprego começou em 12,5% quando o acordo com a troika foi assinado, subiu até a um máximo de 17,4% no início de 2013, mas hoje é apenas 6,7%. Uma recuperação extraordinária naquela que é a principal causa da desigualdade dos rendimentos.

Sétimo, Portugal recuperou a sua reputação internacional com as instituições europeias assim como os investidores e as suas agências de rating. Fê-lo mostrando responsabilidade fiscal, respeitando os seus compromissos, e seguindo o caminho para reduzir a nossa enorme dívida pública.

O habitual pessimismo luso dirá que é pouco. Mas são muitas mudanças estruturais num país avesso a reformas, e são problemas finalmente resolvidos depois de terem sido identificados há décadas atrás. Quando perco o ânimo com os desapontantes números do crescimento económico, lembro-me destes 7 pontos. Trazem-me esperança que talvez a economia portuguesa consiga em breve recuperar o atraso que acumulou no século XXI.

Professor de Economia na London School of Economics

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