Opinião: Carlos Brito

O que pode a democracia aprender com os shoppings

Fotografia: Amin Chaar/Global Imagens
Fotografia: Amin Chaar/Global Imagens

O desafio passa por apresenta propostas de valor suficientemente distintas que façam com que os cidadãos estejam dispostos a pagar o “preço” de votar

Para o sucesso de um centro comercial contribuem dois tipos de atores: o proprietário do shopping e os lojistas. Ao primeiro cabe gerar tráfego, atraindo potenciais compradores, aos segundos compete vender, transformando os potenciais compradores em clientes efetivos.

Por incrível que pareça, algo semelhante se passa com as eleições. Ao Estado cabe atrair os cidadãos para o ato eleitoral, aos partidos compete convencê-los de que as suas propostas são as melhores e de que são os mais competentes e credíveis para as implementar.

Os elevados níveis de abstenção que temos tido podem, pois, significar duas coisas. Por um lado, que o “shopping” – leia-se, o sistema partidário – não é suficientemente atrativo para os “clientes” – leia-se, os eleitores. Por outro lado, que as próprias “lojas” – leia-se, os partidos – não apresentam propostas de valor suficientemente credíveis que levem os seus potenciais “clientes” a fazerem o esforço de votar.

Uma coisa é certa. Atrair clientes ao centro comercial – seja no sentido real, seja no figurado deste artigo – não é uma mera questão de comunicação. E sem cometer a heresia de “marketizar” um dos pilares essenciais da democracia, creio que valerá a pena os nossos políticos pensarem nisto.

O desafio não passa só pela melhoria da comunicação – através de apelos ao voto mais persuasivos – nem tão-pouco pela distribuição – através do voto antecipado ou mesmo eletrónico. O desafio passa pela apresentação de propostas de valor suficientemente distintas, atrativas e credíveis que façam com que os cidadãos estejam dispostos a pagar o “preço” de votar.

Sendo esse “preço” efetivamente baixo – uma mera deslocação à mesa de voto – isto dá para entender que o “valor” percebido pelos eleitores é ainda menor pois não compensa o dito custo. Sei que não podemos escamotear o efeito da ação coletiva. Estou também ciente do aumento do número de partidos com assento parlamentar.

Mas quando quase metade da população pensa que o “valor” de exercer o direito de voto é inferior ao “preço” que lhe é cobrado, o mercado eleitoral dá indícios de estar aberto a propostas mais distintas – e quiçá mais radicais – mas também, eventualmente, menos democráticas. Cabe-nos a todos, e não apenas ao Estado e aos partidos, evitar que tal aconteça.

 

Carlos Brito, professor da Faculdade de Economia – Universidade do Porto

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