O que restará quando a covid passar

Um fim de semana de Páscoa cheio de avisos, mas com demasiadas pessoas a aproveitar o teletrabalho para fugir mais cedo para as casas de campo e celebrar a festa em família - quantas vezes em versão alargada, como no Natal... E a luz da reabertura das esplanadas ao fundo do túnel em que estamos fechados há meses. É já garantida esta nova fase que ajudará algumas das empresas sufocadas a voltar a ter ar, mesmo que estejam longe de respirar fundo. Mas não haja ilusões: é de esperanças e de figas que se faz o desconfinamento.

Com uma campanha de vacinação europeia que mesmo a inapta OMS considera "inaceitavelmente lenta" - fraco consolo, Portugal até não está mal posicionado entre os piores -, o verão aberto aos turistas que seria vital para a recuperação não vai acontecer. Nem sequer com os que poderiam chegar de outros países europeus, porque não há passaporte que contorne o sentimento de falta de segurança, justificado a cada recrudescimento do vírus numa ou noutra zona da Europa.

Ainda mais inacreditável é que isto se passe numa região que é uma das mais ricas e a mais envelhecida do mundo, maioritariamente dominada por uma união de Estados que lhe garante poder e escala. Seria de esperar que a União Europeia fosse rápida e eficaz a proteger os seus cidadãos, como se mostrou decisiva nos apoios económicos contra a crise gerada por esta pandemia.

Mas em vez de empenhar tudo na proteção dos seus habitantes - pela idade, dos mais vulneráveis à covid -, em vez de ser inflexível na prossecução de uma vacinação concertada, rápida e eficaz, a Europa parece só saber arrastar-se de confinamento em confinamento, incapaz de agir com ousadia, apenas repetindo a receita do controlo artificial do número de casos com lockdowns sempre que os contágios sobem e se gera o pânico. Pouco contribui para aumentar o ritmo de produção ou dar segurança sobre o uso de determinada vacina - 40 casos em 17 milhões de doses não é verdadeiramente um risco, mas se há receios, que se desvie a da AstraZeneca dos mais jovens.

Por outro lado, em vez de se empenhar na compra do maior número de doses possível, repete ameaças de restrições à exportação, esquecendo o que disse há um ano sobre as proibições chinesas à venda de máscaras e ventiladores ao exterior.

Os apoios desenhados para os Estados-membros, esses sim decididos rápida e eficazmente, têm sido fundamentais para manter mínimos de sobrevivência na Europa. Mas os seus efeitos perdem força a cada novo confinamento. Muitas empresas nunca mais abrirão portas, muitos trabalhadores vão perder o emprego, muitas famílias terão os rendimentos cortados pelos próximos anos. Só a inoculação permitirá salvar a economia europeia. Veremos que parte dela restará quando a poeira assentar.

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