Opinião

O que vai acontecer à economia de partilha?

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Justin Sullivan/Getty Images/AFP

O panorama que começa a surgir é de efeitos colaterais para as operadoras destes serviços partilhados, mas não uma infecção mortal por causa do vírus

No pico do confinamento, o volume de viagens nos principais serviços de partilha de boleia, Uber e Lyft, caíram entre 75% e 80% em relação aos meses anteriores. As maiores operadoras de trotinetes eléctricas, Lime, Bird e Jump, protagonizaram um autêntico êxodo de dezenas de cidades e países, despedindo centenas de pessoas.

A plataforma de arrendamento de curto prazo Airbnb prevê uma quebra das receitas na ordem dos 44% na época alta, entre Junho e Agosto, depois de um tombo sem precedentes na Primavera. A WeWork, que lidera o segmento dos espaços de trabalho partilhados, viu-se praticamente congelada nos meses do confinamento. A PodShare, que tem vários apartamentos de co-living em Los Angeles, viu o negócio cair para mais de metade por causa da pandemia.

Todos são exemplos primários da economia de partilha, cuja premissa é pagar menos por um serviço porque este é partilhado. Mas durante uma crise sanitária que exige distanciamento social para evitar a propagação de um vírus, como é que estes negócios podem sobreviver? E se a pandemia persistir por mais um ou dois anos, como vários especialistas prevêem, será possível que este conceito sobreviva?

Os primeiros indicadores das últimas semanas, durante as quais se procedeu a uma reabertura gradual da sociedade, dão a entender que sim. Apesar do receio de partilhar espaços com estranhos, já se nota um aumento nas viagens em serviços de boleias e há até análises que apontam para a utilidade destes serviços na recuperação. A Harvard Business Review, por exemplo, diz que a WeWork pode ter um papel importante no trabalho do futuro.

É um cenário muito interessante. Agora que as empresas foram obrigadas a enviar os trabalhadores para casa e a implementarem novos métodos de teletrabalho, muitas perceberam que podem obter mais eficiência se mantiverem uma parte da sua equipa em formato remoto. Ora, em vez de terem um grande edifício que concentra todos os trabalhadores numa cidade, poderão optar por ter os seus profissionais espalhados por vários sítios. E sendo necessário aceder a espaços de trabalho flexíveis, haverá estruturas como a WeWork com custos mais baixos e pouco compromisso.

O panorama que começa a surgir agora é de efeitos colaterais para as operadoras destes serviços partilhados, mas não uma infecção mortal por causa do vírus. De acordo com uma nova pesquisa da BCC Research, a economia de partilha deverá valer 1,34 biliões de euros em 2024, o que significa que continuará a crescer a bom ritmo apesar da pandemia. No ano passado, segundo as contas da consultora, valeu 334 mil milhões de euros e vai crescer a uma taxa anual de 31,9% nos próximos anos.

O analista Andrew McWilliams explica que tal se deve à natureza da economia de partilha: flexível. Uma vez que as empresas vão deixar parte da sua equipa trabalhar de forma remota, haverá não só necessidade de espaços de co-working mas também do uso de trotinetes, bicicletas e boleias partilhadas para cobrir pequenas distâncias.

Mas há também um outro lado, porque dificilmente as coisas voltarão ao que eram. Um dos grandes problemas deste sector antes da pandemia é que as pessoas que asseguram o seu funcionamento – os motoristas, os anfitriões, os trabalhadores de biscates – tinham pouca ou nenhuma protecção em termos de seguros, baixas por doença e salários.

Isso, por outro lado, também significava uma variação muito grande em termos da qualidade da oferta, porque as empresas não obrigavam ao cumprimento de padrões nem investiam no processo de verificação. Uma viagem num Uber podia ser agradável como um serviço de limusine num dia e terrível e assustadora no outro. A experiência num Airbnb podia ser melhor que num hotel de cinco estrelas ou um pesadelo de más condições e cancelamentos em cima da hora.

O que a pandemia veio mostrar a estas operadoras é que a sobrevivência dependerá da confiança dos utilizadores e da protecção mínima aos trabalhadores. Terão de ser mais parecidas com os sistemas tradicionais a que causaram disrupção no passado.

Terão de assegurar normas rígidas de higiene e padrões de prestação, verificando as credenciais das pessoas que fornecem serviços. Em troca, oferecerão melhores condições, deixando de clamar que são meras plataformas tecnológicas que fazem o encontro entre a oferta e a procura.

Se o comportamento actual oferece algum vislumbre do futuro é que uma parte da população está ansiosa para ignorar os riscos do vírus, mas uma grande parte não abdica da cautela. Isso é bom e forçará a mudanças permanentes. Tão cedo não voltaremos a ter uma oportunidade destas de mudar a sociedade para melhor.

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