O racional de comprar agora, pagar depois

Um dos efeitos da pandemia de covid-19 no retalho foi o florescer de tendências que teriam demorado anos a chegar a este ponto. Quase tudo mudou na percepção dos consumidores e na flexibilidade dos retalhistas, e em parte é isso que explica o "boom" dos serviços que permitem comprar agora e pagar em parcelas sem qualquer taxa, juro, penalização ou aumento de preço.

O momento gigante das empresas que fornecem este serviço ficou demonstrado há poucos dias, quando a Square de Jack Dorsey (o CEO do Twitter) anunciou a aquisição da Afterpay por 29 mil milhões de dólares. É um valor incrível para a fintech considerada líder do sector, num mercado em ebulição onde há cada vez mais concorrentes - desde a Affirm, a Sezzle e a europeia Klarna à Pay in 4 da PayPal e Quadpay. Até a Apple deverá entrar no segmento, com o serviço Apple Pay Later em parceria com o Goldman Sachs.

Embora a reacção do mercado à compra da Afterpay tenha sido mista, porque o valor parece excessivo, o negócio dá um vislumbre do que será o futuro dos pagamentos. O que estes serviços oferecem é uma proposta de valor que ressoa sobretudo com os consumidores mais jovens. Não tem as desvantagens de pagar a crédito, com as elevadas taxas de juro associadas, nem os problemas de pagar a pronto, descapitalizando consumidores que têm sobrevivido a sucessivas crises desde que entraram no mercado de trabalho.

Permitem pagar em quatro ou seis vezes (normalmente) com parcelas fixas e sem qualquer penalização. São os retalhistas que pagam uma percentagem pela modalidade, não os consumidores, o que é justificado pela possibilidade de fazerem vendas de valor mais elevado do que fariam se não oferecessem esta alternativa.

A história de como a Afterpay surgiu também reflecte uma inflexão na forma de comprar que está a ser impulsionada pelos Millennials e Geração Z. Se há coisa que ambos têm em comum, talvez provocada pelas crises financeiras a que assistiram na chegada à idade adulta, é que não gostam particularmente de cartões de crédito. Preferem pagar com cartões de débito, têm menor confiança nos bancos e no racional dos empréstimos.

Foi isso que o Millennial australiano Nick Molnar percebeu, quando teve a ideia de criar a Afterpay com Anthony Eisen. Juntos, fundaram uma das startups de crescimento mais rápido da história das fintechs, com um conceito verdadeiramente simples. Vai comprar algo por 100 euros? Pode pagar em quatro parcelas de 25 durante os próximos dois meses, usando o cartão de débito normal.

Será interessante ver a forma como a Square irá integrar a Afterpay e que serviços inovadores sairão da junção das duas. O certo é que a mudança está a alastrar e colocar pressão sobre os players que têm beneficiado, até agora, das compras a crédito. Prova A: a criação do serviço "Plan It" da American Express, que permite aos detentores dos seus cartões de crédito parcelarem pagamentos avultados até 24 meses sem juros.

A "economia covid" continua a fazer emergir tendências e é muito provável que sejam irreversíveis. Depois disto passar, os consumidores vão querer poder continuar a comprar online e a recolher na loja. Ou a comprar online e a ir buscar a um cacifo. E, certamente, a pagar em várias vezes sem juros nem cartão de crédito.

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