O ranking das Escolas e a importância dos dados

Chegou a hora de os dados, que estão a mudar o mundo, poderem mudar também a educação. Já o estão a fazer, mas ainda há muito por mudar.

Serão os dados o novo petróleo? O título da capa da revista The Economist de maio de 2017 foi "The world"s most valuable resource is no longer oil, but data". Esta capa continua a ter um tremendo impacto sobre a perceção da importância dos dados na sociedade. A analogia dados-petróleo teve desenvolvimentos desde então. Uma frase não capta todo o valor dos dados e vão-se cunhando novas expressões. "Os dados são o novo ouro" também é uma boa analogia pois, para além de associar o seu valor ao do metal precioso, mostra que vivemos uma "corrida aos dados".

Outra analogia feliz é "os dados são a nova água", pois os dados devem ter liquidez, têm de ser de confiança, devem fluir e estar disponíveis a quem deles precisa, no momento e local adequados. Tal como a água, são essenciais para a vida moderna.

Da mesma forma que o petróleo é refinado, o ouro purificado e a água tratada, os dados percorrem um processo de transformação de cinco fases, identificadas pela pirâmide do conhecimento: DIKIW (do inglês Data, Information, Knowledge, Insights and Wisdom). Os dados em si não nos dizem nada. Quando os conseguimos compreender e relacionar com um sentido, podemos dizer que temos informação. A informação é transformada em conhecimento quando sabemos como a usar, quando conseguimos ligar as partes e perceber o como e o porquê dos acontecimentos e das situações. Os dados ganham verdadeiro valor, quando conseguimos sintetizar o conhecimento para tomar decisões informadas e, atuar com um entendimento profundo das realidades: é o que chamamos inteligência. Por fim, chegamos à sabedoria quando conseguimos perceber todos os aspetos do problema, analisar criticamente a situação e aprender com todo o processo para contribuir positivamente para a melhoria contínua das situações.

Tal como estes recursos, muitas vezes também é preciso pesquisar e procurar os dados, pois os dados esquecidos, parados e não usados, não têm nem geram qualquer valor e podem até perder validade. Muitas vezes, não conseguimos perceber todo o valor potencial antes de os olharmos e usarmos.

Os dados têm características interessantes que os diferenciam dos recursos naturais. Por exemplo, não se gastam com o uso, antes pelo contrário, podem ser usados vezes sem conta e por vários utilizadores em simultâneo. O seu uso também possibilita a sua multiplicação pois, podem-se produzir novos dados através da agregação e transformação dos existentes. Outra diferença interessante: se juntarmos água à água, ouro ao ouro ou petróleo ao petróleo, ficamos com o mesmo recurso mas em maiores quantidades. Em relação aos dados acontece o oposto: se aos dados juntarmos novos dados, diferentes, ficamos com dados mais ricos e com um potencial de criação de valor muito superior ao original.

Esta é a realidade que vivemos no mundo de hoje, os dados estão realmente a mudar o mundo. Mudam a forma como tomamos decisões, como trabalhamos, como aprendemos, como nos relacionamos, em suma, mudam a nossa vida.

Esta mudança é forte nas chamadas organizações nativas digitais, que se têm mostrado superiores à concorrência, pois basearam a sua estratégia na utilização de dados. São exemplos disso a Google, a Amazon ou a Alibaba. Muitas organizações tradicionais seguem-lhes os passos e, com bons exemplos de criação de grandes vantagens competitivas sustentadas. A boa notícia é que a utilização inteligente dos dados há muito que não está limitada às grandes organizações e aos grandes orçamentos. Novas ferramentas de tratamento e visualização tornam a informação mais intuitiva, de fácil acesso e exploração, permitem uma tomada de decisão mais rápida e melhor, facilitam a identificação mais atempada dos problemas e até a sua antecipação. Monitorizando as operações, motivam a transparência e a comunicação de informação a todos os interessados.

A partir de dados disponibilizados pela Direção Geral da Educação, uma equipa de quatro alunos da Pós Graduação em Entreprise Data Science and Analytics, da NOVA IMS, na qual me incluo, desenvolvemos uma ferramenta que permite trabalhar os dados referentes aos rankings das escolas, num conjunto assinalável de variáveis.

A riqueza contida nestes dados é enorme e a imaginação é o limite para as perguntas que podemos fazer. Por exemplo: seria interessante ter a informação (anonimizada) sobre os professores que cada aluno encontrou, quais as suas características em termos de idade, experiência, formação, métodos de ensino, etc. Poderíamos validar qual o impacto do professor do primeiro ciclo na vida de um estudante: é tão importante como se costuma dizer? Com os dados do ensino superior, poder-se-ia avaliar a relação entre o desempenho dos alunos no ensino secundário e superior. Será que juntando mais informação se conseguem encontrar correlações e padrões escondidos que ajudem a melhorar todo o processo educativo?

Chegou a hora de os dados, que estão a mudar o mundo, poderem mudar também a educação. Já o estão a fazer, mas ainda há muito por mudar. É possível caminhar para um ensino mais personalizado e, porque não, para um ensino hiper-personalizado e abandonar o one-size-fits-all. O ideal seria que todos os intervenientes no contexto educativo tivessem acesso à informação que lhes permitisse decidir de forma informada, saber o que é melhor para cada aluno, para cada turma, para cada professor e para cada escola em cada situação.

Uma polémica recorrente é a inflação das classificações internas, e esta é uma questão que podemos explorar com os dados disponíveis. Acrescentamos hoje ao nosso site a comparação entre as classificações internas das escolas e as classificações nos exames nacionais. Onde existe a maior diferença entre estas classificações? Existe ou não inflacionamento de notas? Em que escolas? Em que disciplinas? Em que anos? Descubra as respostas (e muito mais) aqui.

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