Opinião

O regresso ao mundo bipolar

David Gravanita (Foto cedida pelo próprio)
David Gravanita (Foto cedida pelo próprio)

As cadeias de produção global têm agora de prestar atenção à política internacional.

Até aos últimos anos, a globalização parecia ter sido um enorme e imparável sucesso: responsável por elevar milhares de milhões da pobreza absoluta, ninguém previa que a onda de integração económica internacional chegasse ao seu fim. No entanto, foi exatamente o que aconteceu: as cadeias de produção global têm agora de prestar atenção à política internacional do dia-a-dia para garantir que os seus produtos não estarão sujeitos a taxas aduaneiras. Em particular, quando quiserem exportar para os Estados Unidos.

A chamada “guerra comercial” foi começada ostensivamente por Donald Trump em 2018, ao impor sucessivas tarifas aduaneiras a produtos produzidos no estrangeiro. As tarifas eram inicialmente limitadas, e aplicavam-se a um grande número de países – incluindo aliados dos Estados Unidos. No entanto, ao longo de 2018 e 2019 estas foram crescendo em escala, mas circunscrevendo-se a um único país: China. As tarifas extraordinárias sobre o Canadá e México foram removidas integralmente em 2019; tarifas sobre produtos da União Europeia aplicam-se sobre cerca de 7,5 mil milhões de dólares em trocas comerciais, nomeadamente em produtos como queijo, iogurte, e bolachas, que sofrem uma taxa de 25% (à exceção de aviões comerciais, cuja taxa é 10%). Em comparação, os Estados Unidos impuseram tarifas em 360 mil milhões de dólares de trocas comerciais sobre a China, de entre os quais dois terços sofrem uma taxa de 50%; o recente acordo comercial entre a China e os Estados Unidos apenas preveniu a imposição de taxas aduaneiras sobre ainda mais produtos e reduziu a taxa praticada para o restante terço. [1] [2] [3] [4] [5]

A principal razão pela qual estas tarifas foram impostas parece ser política – a narrativa cada vez mais habitual sendo a de competição entre duas grandes potências. Nesta perspetiva, mesmo que os custos das tarifas comerciais nos Estados Unidos sejam substanciais – um estudo recente da Federal Reserve Board confirma efeitos negativos tanto na produção como no emprego, criados por estas mesmas tarifas – as perdas sofridas pela China são ainda maiores. O que aparenta ser uma decisão que impacta negativamente ambos os países pode ser justificada por parte dos Estados Unidos do ponto de vista da segurança, bem como da manutenção da supremacia atual. Aliás, apesar da “guerra comercial” ter sido caracterizada pelo partido Democrata Americano como irracional e desnecessária em 2018, hoje parece ser consensual à esquerda e à direita Americana. Mesmo que discordemos com o statu quo, teremos de o aceitar no futuro próximo. [6]

A preocupação com a ameaça Chinesa é compreensível. A China tem-se mostrado cada vez mais assertiva no palco global, tanto a nível económico, como militar ou diplomático, dificultando a ordem liberal liderada pelos Estados Unidos. De particular relevância é a disputa em relação ao mar do Sul da China, onde o país reclama como suas águas na zona económica exclusiva das Filipinas e do Vietname. Outro exemplo seria a construção de uma base militar do Exército de Libertação Popular no Djibouti. Aliás, como tem estado em foco nos média ocidentais, a China tem cada vez mais influencia no continente Africano, financiando e construindo infraestruturas; a África como um todo deve cerca de 142 mil milhões de dólares à China e, apenas em Angola, 43 mil milhões. [7] [8] [9]

No entanto, o que tem mais dominado o imaginário da influência chinesa no estrangeiro é a chamada Belt and Road Iniative ou BRI. Na sua génese, o objetivo seria o de melhorar as infraestruturas dos países na antiga rota da seda, visando facilitar as trocas comerciais com a China. Porém, na realidade este é um projeto bastante descentralizado, onde bancos controlados pelo regime Chinês emprestam fundos em termos favoráveis para a construção por empresas chinesas de infraestruturas como portos, estradas, pontes, ou vias de comunicação. De momento, 153 países fazem parte da Belt and Road Initiative, incluindo Portugal, e o número de projetos no seu âmbito é numeroso. Sendo qualquer projeto sujeito a aprovação política, é mais do que justificado o medo de que o BRI seja na prática uma forma da China ganhar influência no mundo global. Os Estados Unidos acusam o BRI de ser “diplomacia através de dívida armadilhada” devido a projetos como o Aeroporto Internacional de Mattala no Sri Lanka, apelidado de “mais vazio do mundo”, que custou mais de 1 milhar de milhão de dólares. Mesmo com taxas de juros aliciantes, o projeto mal conseguia pagar a amortização do capital, pelo que o Sri Lanka se viu forcado a entregar o aeroporto a empresas Chinesas controladas pelo governo. Nessa perspetiva, além de ser uma forma de beneficiar as suas empresas, o BRI é uma tentativa do governo chinês de forçosamente criar dependência na China por parte dos participantes [10] [11]

Desta forma, parece inegável que os tempos modernos parecem indicar o fim da ordem liberal mundial que se afirmou após a queda da União Soviética, e o retorno, por enquanto embrionário, a um mundo binário de esferas de influência. A história não se repete, mesmo que rime: os Estados Unidos e a China continuam bastante dependentes um do outro economicamente; a grande maioria dos territórios do mundo são dependentes dos dois de alguma forma; além disso, e apesar da Belt and Road Initiative, a China tem um número extremamente diminuto de países aliados ou sob sua influência (a União Soviética também não tinha em 1930). Todavia, o ponto de inflexão parece já estar no passado. À medida que os dois poderes se afastam, e bipolarizam o resto do mundo com eles, os ganhos da globalização poderão ser revertidos.

Fontes consultadas:

    1. [1] https://www.bbc.com/news/business-47862622
      [2] https://www.ft.com/content/f82cdc4c-1db7-11ea-9186-7348c2f183af
      [3] https://www.ft.com/content/9a2c5af6-e51c-11e9-9743-db5a370481bc
      [4] https://www.ft.com/content/f25502b2-2bd7-11ea-a126-99756bd8f45e
      [5] https://www.ft.com/content/3484591c-78c3-11e9-bbad-7c18c0ea0201
      [6] https://www.federalreserve.gov/econres/feds/files/2019086pap.pdf
      [7] https://news-decoder.com/2019/02/28/africa-china-trade-loans/
      [8] https://web.archive.org/web/20170518023652/http://www.npr.org/sections/thetwo-way/2016/01/21/463829799/china-reaches-deal-to-build-military-outpost-in-djibouti
      [9] https://en.wikipedia.org/wiki/Territorial_disputes_in_the_South_China_Sea
      [10] https://qz.com/896219/chinese-investment-aid-to-sri-lanka-has-been-a-major-success-for-china/
      [11] https://qz.com/1223768/china-debt-trap-these-eight-countries-are-in-danger-of-debt-overloads-from-chinas-belt-and-road-plans/

David Gravanita é aluno da Nova SBE e membro do Nova Economics Club
Artigo escrito no âmbito da iniciativa Economia Viva 2020

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