Opinião

O regresso dos Google Glass

Tiago Amorim of Brazil, poses with a Google Glass eyewear frame in Manhattan, New York September 19, 2014.  REUTERS/Adrees Latif  (UNITED STATES - Tags: BUSINESS SCIENCE TECHNOLOGY TELECOMS) - RTR46ZID
Tiago Amorim of Brazil, poses with a Google Glass eyewear frame in Manhattan, New York September 19, 2014. REUTERS/Adrees Latif (UNITED STATES - Tags: BUSINESS SCIENCE TECHNOLOGY TELECOMS) - RTR46ZID Google Glass

Aquela manhã em que um dos fundadores da Google apresentou os óculos de realidade aumentada Glass ficou na história por dois motivos.

Aquela manhã de 2012 em que um dos fundadores da Google apresentou os óculos de realidade aumentada Glass ficou na história por dois motivos. Primeiro, foi a apresentação mais radical que a Google alguma vez fez: incluiu um salto de helicóptero de dois pára-quedistas que aterraram no topo do centro de convenções, com as imagens dos óculos a serem transmitidas em tempo real lá para dentro. Segundo, foi um dos falhanços mais espectaculares da gigante de Mountain View: lançou a primeira versão para o público em 2014, por 1500 dólares, e descontinuou-a oito meses depois.

Os óculos tinham um pequeno ecrã rectangular e transparente do lado direito, que permitia aos utilizadores acederem a diversos tipos de informação (por isso houve tantas comparações aos óculos que Arnold Schwarzenegger usou em “Exterminador Implacável). Controlava-se com toques na haste e comandos de voz e era considerado o futuro dos wearables – tinha lá dentro o processador, a memória, a bateria, microfone e altifalantes, além de Bluetooth, antenas Wi-Fi, acelerómetro, giroscópio e bússola. Era uma pequena maravilha de engenharia, concebida nos laboratórios secretos “X” para onde a Google enviava todos os seus projectos loucos.

Porque é que falhou, então, quando ficou disponível? Foi sobretudo uma questão social. Ninguém ficava bem a usar aquilo na cara, por mais que marcas como a Ray-Ban e a designer Diane von Furstenberg tivessem tentado dar uns toques cool ao design. Era muito mais “Inspector Gadget” que “Matrix.”

Além de fazer qualquer um parecer um cromo do pior, os Google Glass também levantavam questões de privacidade quando usados em público. Você está a filmar? Porque é que está a olhar para mim com isso? Houve cenas de pancadaria e vários locais que proibiram a sua utilização, incluindo bares e restaurantes.

No início de 2015, a Google assumiu o erro e descontinuou os óculos, que continuaram a ser usados apenas em cenários de investigação e aplicações empresariais. A gigante, que entretanto foi integrada na holding Alphabet, prometeu voltar à estaca zero e redesenhar de raiz. Não foi bem isso que aconteceu.

O sonho dos óculos de realidade aumentada está de volta, com um relançamento virado para as utilizações empresariais, Google Glass Enterprise Edition. À primeira vista, o design não é muito diferente daquilo que conhecíamos. Trata-se de uma nova versão que foi testada por algumas empresas durante os últimos dois anos. A Google fez um jogo de gato e rato neste período, escusando-se a comentar ou confirmar. Mas agora está aí essa versão Glass 2.0. A sua aplicação foca-se em fábricas e instalações industriais, na cara de trabalhadores que usam os óculos para irem buscar informações relevantes sem terem de tirar os olhos – ou as mãos – do que estão a fazer. A parte electrónica, a que a Google chama Glass Pod, pode agora ser facilmente removida das hastes e conectada a óculos de segurança para ambiente perigosos ou a um par de óculos normais.

Tal como seria de esperar, há melhorias lá dentro – o processador é mais rápido, a bateria dura um dia normal de trabalho, o Wi-Fi é mais fiável e a câmara tem agora 8 megapixels. E quais são as empresas que estão a usar estes óculos em ambiente de produção? A Boeing é uma delas.

O que a Google espera é ter uma segunda oportunidade de reinventar a realidade aumentada onde existe um caso de utilização com vantagens reais. No chão da fábrica há mil razões para usar uns óculos destes; para o consumidor que anda na rua ou vai ao café, nem por isso. E se é para filmar um salto de pára-quedas, como Sergey Brin e os seus acrobatas fizeram naquele evento de lançamento, então espetar com uma GoPro na testa faz mais sentido.

Não é que a tecnologia tenha surgido na altura errada. O problema, com esta e tantas outras invenções que saem do forno de Silicon Valley, é que assumem erradamente que existe um valor intrínseco em tudo o que é inovador. Se não resolver um problema e se não contribuir para tornar a vida melhor, a invenção em si não serve de nada. Mas às vezes, falhar é mesmo a melhor coisa que pode acontecer. De outra forma, como se descobriria o caminho alternativo que levará ao verdadeiro sucesso?

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