Opinião

O regresso dos telemóveis básicos

Telemóveis básicos Nokia

O luxo em 2013 era ter um smartphone topo de gama. O luxo em 2019 é deixar o iPhone na gaveta e sacar de um telemóvel-concha

Na curta intitulada “Anti Social – A Modern Dating Horror Story”, a protagonista pensa que encontrou o homem dos seus sonhos até descobrir, horrorizada, que ele não usa redes sociais. O seu pesadelo torna-se evidente quando ele tira do bolso um telemóvel tradicional, daqueles pequeninos e com botões físicos, incapazes de publicarem ‘selfies’ no Instagram.

A ausência de perfis online é motivo de desconfiança – o que será que ele tem a esconder? Que psicopata não usa redes sociais hoje em dia? Também impede um dos métodos actuais mais eficazes para desperdiçar tempo: esgueirar-se digitalmente para cima do feed alheio, tentando identificar o local de uma foto tirada à beira mar em 2014, examinar a autoria dos ‘gostos’ mais frequentes e fazer um registo mental da lista de amigos.

Estes seres estranhos que usam telemóveis apenas para mensagens de texto, chamadas e o ocasional jogo tipo ‘Snake’ julgaram-se extintos em 2013, ano em que os smartphones ultrapassaram as vendas de dispositivos ditos “básicos” ou “tradicionais”. Os telemóveis semi-estúpidos pareceram então condenados ao desaparecimento, por mais que a Nokia esbracejasse em busca de golfadas de ar. Mas os anos de obsessão com os ecrãs gigantes de smartphones ultra-potentes deixaram uma marca social pesada. O luxo em 2013 era ter um smartphone topo de gama. O luxo em 2019 é deixar o iPhone na gaveta e sacar de um telemóvel-concha.

A vontade de regresso às origens começou a sentir-se no ano passado, quando as consultoras constataram, estupefactas, que a venda de telemóveis tradicionais estava a crescer mais rapidamente que a de smartphones. Ainda que os volumes sejam inferiores, a curva voltou a ser ascendente. Estamos perante um renascimento de tecnologia obsoleta, fenómeno que não é inteiramente novo. Olhem para a popularidade renovada dos discos de vinil, por exemplo. Se calhar já estivemos mais longe de voltar a usar disquetes.

O que motiva este reacender do interesse, de que Conan Osíris obviamente não partilha, é mais que a vontade de desligar o chorrilho de interpelações que gritam a todo o momento nas notificações do smartphone. Há a maior duração da bateria, há a possibilidade de guardar o telemóvel em qualquer bolso ou pochete, há a eliminação dos riscos de segurança colocados por apps esquisitas, há o manguito aos Facebooks e outros sites que rastreiam os utilizadores até quando não estão a usar as apps.

O interessante neste início de 2019 é que está a surgir procura por um híbrido entre o smartphone e o ‘feature phone’, como se não houvesse já confusão suficiente no mercado. Segundo um relatório fresquinho da consultora Counterpoint Research, a procura por aquilo que eles chamam, sem ironia, “smart feature phone”, cresceu 252% em 2018. Trata-se de telemóveis tradicionais, com os conhecidos formatos concha ou compactos e teclado físico, que incluem processador capaz de suportar um sistema operativo mais inteligente. Podem, por isso, dar acesso de alta velocidade à internet e ter a capacidade de correr aplicações.

Ao contrário do que se possa pensar, não são só os emergentes a impulsionarem a procura por estes dispositivos. Estados Unidos e Reino Unido são dois mercados cruciais mencionados no relatório, que também refere a KaiOS de Hong Kong como uma das empresas que estão a dar gás à tendência. A sua plataforma baseada em Linux permite o tal híbrido de telemóvel básico semi-inteligente, que apela aos clientes sem vontade de ter smartphone mas necessidade de algo mais que um terminal estúpido.

O sucesso do renovado Nokia 3310, que foi relançado há dois anos, confirma apetite por esta nostalgia tecnológica. Até o interesse pelo regresso do icónico Motorola Razr é notável, ainda que os rumores apontem que se tratará de um modelo limitado com o preço exorbitante de 1500 dólares. Anda tudo a olhar para smartphones topos de gama dobráveis como se o formato concha nunca tivesse existido. Com esse regresso é que estava tudo estragado. Ou pelo contrário, arranjado. Se calhar é disso mesmo que precisamos: um terminal estúpido ou apenas semi-inteligente para nos arrancar aos tentáculos dos ecrãs hipnotizantes que nunca desligam.

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