Opinião

O renascer das fotografias em papel

fotografias em papel polaroid

As fotografias impressas são uma forma de capturar momentos numa era em que nos sentimos atordoados pela velocidade da vida digital

O dia de ir entregar os rolos para revelar à loja de fotografia no centro comercial D. Pedro III, em Queluz, era sempre de uma excitação incontrolável. Em breve saberíamos como saíram as fotos na praia, na festa de anos ou nas férias do Verão, planeando as ampliações para as molduras que forravam a sala de cima abaixo. Em metade dos casos as fotografias estavam mal enquadradas, tinham efeitos de luz esquisitos e eram puro desperdício de dinheiro. Mas havia sempre umas pedras preciosas em cada fornada, fotos a que regressaríamos vezes sem conta folheando os álbuns nos anos seguintes.

Essa forma de recordar passou de intermitente e cara a omnipresente e gratuita, com o sucesso das câmaras nos smartphones.

Passámos a tirar quantidades industriais de fotos e a guardá-las em nuvens. Passámos a filtrar imagens das nossas vidas nas redes sociais. E não só se vaticinou o fim das câmaras individuais, salvo o material professional, como o fim das fotografias em papel. A loja do D. Pedro III fechou, há muito, e a arte de revelar fotografias perdeu-se, inutilizada.

Os números da Camera & Imaging Products Association mostram que as vendas mundiais de câmaras digitais estão, de facto, a cair a pique: de 122 milhões de câmaras vendidas em 2010 passámos para 20 milhões no ano passado e apenas 7 milhões no primeiro semestre de 2019. É uma quebra impressionante, 84% em menos de dez anos.

Não é só porque o surgimento de smartphones com três câmaras (olá, iPhone 11 Pro) e software de edição pré-incluído tornam mais difícil justificar o investimento numa câmara individual, mesmo que barata. É também porque o ritmo a que produzimos e consumimos conteúdos acelerou como nunca. A foto publicada há três horas já era; as stories de ontem já não interessam. Vive-se em cima do acontecimento, se piscarmos os olhos perdemos o momento.

Por isso é tão interessante que, no pior ano de sempre para as vendas de câmaras digitais, a impressão de fotos passe por uma espécie de renascimento. Na era do digital, as fotos em papel entraram numa segunda era dourada. A indústria mudou radicalmente, sim, mas conseguiu adaptar-se aos novos cenários de consumo, providenciando ferramentas e opções para imprimir as fotos no smartphone ou até directamente da conta de Instagram. Não apenas em papel, mas noutro tipo de suportes – veja-se o sucesso da Mixtiles e empresas que oferecem serviços semelhantes. Pegam nas fotos do Instagram e imprimem-nas em suportes que se colam na parede, podendo ser retirados e colados novamente.

Há espaço para as molduras digitais, mas ter na mão uma foto em papel transporta um significado mais profundo que a beleza da imagem em si. Da mesma forma, diria, que os e-books não conseguiram matar o gosto pelos livros em papel, com a magia das suas capas grossas e o odor adocicado das folhas a estrear. Neste jogo da digitalização que mudou profundamente diversas indústrias, há por vezes um momento de inversão, no qual se tenta recuperar parte do que se perdeu. Os discos em vinil, os livros em papel, os telemóveis básicos. Porquê? Saudosismo?

Talvez não.

As fotografias impressas são uma forma de capturar momentos numa era em que nos sentimos atordoados pela velocidade da vida digital, sempre atrás do prejuízo, incapazes de abrandar. As câmaras tipo Polaroid e Instax dão-nos também o distinto prazer do momento irrevogável e irrepetível, a foto que não se pode editar, o segundo em que a vida foi aquilo mesmo, sem filtros. Era um luxo ter uma câmara digital em 2003, agora é um pequeno prazer pegar nas fotos e imprimi-las, ou assistir à sua revelação instantânea. Dá a surpresa, naquele momento. E tanto quanto não podemos voltar atrás no tempo, podemos torná-lo mais autêntico.

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