O sentimento de culpa do emigrante

E se de repente um português sentir mais vontade de votar na
brasileira Dilma do que em dois ex-jotas portugueses? Um emigrante
perde inevitavelmente a ligação sentimental ao país de origem? Os
pioneiros irlandeses dos EUA temiam que sim, esta coluna tenta provar
que não.

A country music americana nasceu com os emigrantes irlandeses. Um
estudo recente das letras das canções originais revelou que, ao
contrário do que se possa pensar, eles não se cantavam a si
próprios, não exaltavam o salto no desconhecido que tinham dado,
não lamentavam as dificuldades de adaptação ao novo mundo, não
descreviam o que os seus olhos viam. Pelo contrário: os poemas
falavam do que a memória lhes dizia, dos velhos e crianças que
ficaram na Irlanda faminta, do verde da paisagem da ilha, da Igreja
Católica que lhes moldou, melhor ou pior, a personalidade.

A conclusão desses estudos é que os pioneiros irlandeses nos EUA
temiam a apostasia, isto é, esquecerem-se de quem eram e
contaminarem-se pelo carrossel de emoções que lhe provocava o país
de destino, tão maior e tão diferente da Irlanda-natal. Queriam ser
exilados irlandeses, jamais imigrantes americanos. As letras das
canções eram, por isso, gemidos de um sentimento de culpa.

Faz sentido este sentimento de culpa? Faz sentido esta gestão de
emoções?

O ser humano toda a vida (e cada vez mais) geriu tudo e orçamentou
tudo, do mais concreto ao menos palpável. Controla-se o dinheiro ao
cêntimo e o tempo, sobretudo o tempo, ao minuto. Porque se tempo e
dinheiro são a mesma coisa, o primeiro é ainda mais traiçoeiro do
que o segundo porque é ainda mais difícil de prever quando nos vai
acabar – o cálculo económico está mais avançado do que a
medicina.

Gere-se o tempo ao sol, que é de borla, porque faz mal à pele; o
tempo à chuva, igualmente grátis, porque pode resultar em
pneumonia; o prato de cozido à portuguesa, mesmo que oferecido,
porque engorda. Até se administra o
número de agradecimentos – “não vou dizer ‘obrigado” a quem
para na passadeira porque não faz mais do que a sua obrigação”
-, o número de sorrisos – “não vou sorrir para um tipo que nunca
me sorri”.

Conta da eletricidade, cêntimos, minutos, calorias, sorrisos,
tudo se orçamenta: de facto, há economia em tudo que há, como diz
o slogan do Dinheiro Vivo.

Voltando ao sentimento de culpa dos irlandeses, a questão é
determinar se a ligação a um país também é orçamentável, como
eles próprios deixavam subentendido. Um emigrante perde a sua
ligação ao país de origem se se envolver com o país de destino?
Um português torna-se menos português se sentir vontade de votar
Dilma (e não pode) e não sentir vontade nenhuma de escolher entre
dois exemplos acabados de ex-jotas? Um português torna-se menos
português se também se indigna com as indignidades brasileiras além
de se indignar com as portuguesas?

A resposta a este “drama existencial de emigrante” é
não. Os milhões de emigrantes irlandeses não tinham razões para
sentirem culpa e os milhões de portugueses que emigraram ou pensam
hoje em emigrar também não: porque a ligação a países não se
perde, acumula-se. Quando muito perde-se a ligação “à espuma dos
dias”, mas a ligação a um país está no domínio das emoções e
esse domínio é o único que não está sujeito a orçamento. Pode
ser-se 100% português – se calhar quem está longe até é 110%
porque passa a entender melhor o fado, porque começa a achar que a
seleção nem está a jogar tão mal assim – e ser 20% ou 40% ou
100% de um segundo país. As emoções ignoram a matemática, fazem
pouco da contabilidade.

Afinal, não é por se ter um segundo filho (ou dois ao mesmo
tempo) que o amor pelo primeiro sofre algum desconto. As emoções
são acumuláveis e estão – ou devem estar – imunes à
austeridade, seja na Irlanda seja em Portugal. Há economia em tudo o
que há, sim, mas nas emoções não se deve – não se pode! –
economizar.

Jornalista

Escreve à quarta-feira

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