O turismo é a nossa Porquinha Peppa

O prémio para o episódio mais bizarro da semana vai para o homem mais bizarro da política, Boris Johnson, mas desta vez com uma mensagem relevante perdida no meio do folclore mediático. Para quem não viu, o momento aconteceu na conferência anual da Confederação Britânica da Indústria, a mais importante reunião dos empresários ingleses, onde Johnson decidiu surpreender tudo e todos com um longuíssimo elogio à Porquinha Peppa. O público fez um sorriso amarelo, os media abocanharam-se à falta de bom senso e a lição, que era boa - o preconceito com que olhamos alguns negócios e setores é tóxico e ignorante -, perdeu-se pelo caminho.

É inevitável fazer o paralelo com a forma como a política e o tecido industrial português olham para o turismo. Desde o famoso rascunho do PRR, onde o tema foi olimpicamente ignorado, até aos programas de quase todos os partidos - onde apenas se fala do assunto para definir banalidades ou explicar como se deve controlar o fenómeno, como se fosse uma praga de insetos -, ninguém, formal ou informalmente, reconhece a importância da maior fonte de rendimento do país e o pensa estrategicamente.

Mas voltemos ao mundo de Peppa. Ou, nas palavras de Boris, à "porquinha com cabeça em forma de secador". Enquanto metade de sala se ria do exemplo infantil e a outra metade deixava cair o queixo de espanto, Johnson tentou chamar a atenção para a dimensão do fenómeno económico. "Quem diria que esta porquinha [inventada por criativos ingleses] viria a ser exportada para 180 países, dar origem a parques temáticos nos EUA, na China, além do original no Reino Unido, e tornar-se num negócio que vale hoje mais de 7 mil milhões?" "Puro génio", prosseguiu o governante, que na sua cruzada pessoal contra serviços estatais aproveitou para lembrar que os criadores da porquinha já tinham sido rejeitados pela BBC e para apostar, com nítido acinte, que nenhum funcionário público inglês terá capacidade para conceber uma Peppa.

Numa altura em que os empresários de todo o mundo se batem com inflação, falta de matérias-primas, bloqueios alfandegários, carência de pessoal, aumento do preço da energia, etc. (e carregue-se neste etc.), ouvir um primeiro-ministro falar de desenhos animados pode soar a desprezo, insulto ou até maluquice - aliás, a maior parte das pessoas, que só ouviu pedaços do discurso, deu como provado que Boris tem vários parafusos a menos.

Mas Johnson, que um dia será julgado pelo mal que fez ao país e ao mundo ocidental com o apoio ao brexit (e com isto revelo a minha opinião política sobre a personagem), não fez mais, neste episódio, do que iluminar uma realidade - o preconceito endémico no mundo dos negócios por qualquer empresa que não envolva maquinaria pesada ou esteja na famosa economia digital, o novo eldorado que tantas vezes não significa absolutamente nada.

Apesar da repulsa provocada pelo discurso de Boris - um magnífico orador, embora desta vez baralhado com os papéis do discurso -, 90% das empresas que integram a poderosa confederação de negócios britânica (e são 190 mil...) não vale nem perto os tais 7 mil milhões a que estão avaliados a simpática Peppa, George e família. Mas quando se fala e elogia esta personagem, o consenso é de que só pode ser piada de mau gosto ou disparate - até mesmo para os ingleses, que inventaram o humor refinado.

Eu penso exatamente o contrário. Mau gosto -estupidez - é perder de vista o essencial: a capacidade para reconhecer o que funciona, o que é realmente novo e o que mobiliza as pessoas a criar riqueza, mesmo que não seja o laçarote da economia digital. Portugal não tem o Silicon Valley, tem o Oeiras Valley, a suprema pimpineira digital que reflete um país que desvaloriza o turismo, a nossa magnífica Porquinha Peppa.

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