O valor da simplicidade

Pelo título deste artigo poder-se-ia pensar que vou abordar a simplicidade enquanto valor pessoal ligado à personalidade e ao estilo de vida de cada um de nós. Poderia ser mas, na realidade, o valor de que aqui vou falar é o económico, algo que é frequentemente negligenciado quando este tema é tratado.

Comecemos pelas marcas. De acordo com a Siegel+Gale, há marcas a que o consumidor associa simplicidade - como a Amazon, Google e Lidl - e outras a que associa complexidade e confusão. No primeiro lugar do ranking elaborado por aquela empresa de branding surge a Netflix, onde funcionalidades como "Os mais populares", "Tendências atuais" e "Top 10 de hoje" são vistas de forma extremamente positiva pelos consumidores, na medida em que lhes simplificam o processo de escolha no meio de um número imenso de opções possíveis.

A Siegel+Gale vai mais longe, procurando medir o impacto da perceção de simplicidade. Assim, um estudo conduzido em alguns dos principais mercados mundiais permitiu-lhe concluir que a maioria dos consumidores está disposta a pagar mais por uma experiência de consumo que simplifique a vida; e que, nesse tipo de situações, a lealdade à marca se revela superior em quase dois terços dos clientes.

Mas não é apenas do lado das marcas e do mercado que a importância da simplicidade se faz sentir. Também do ponto de vista da organização interna há evidências da sua relevância. A começar pelos colaboradores que, em geral, preferem trabalhar em empresas "não complicadas" - isto, para não falar das perdas em termos de eficiência e de flexibilidade que a complexidade organizacional introduz.

Os avanços tecnológicos, decorrentes da crescente digitalização das organizações, são por vezes causa desse acréscimo de complexidade. Quem ainda não ouviu dizer, a propósito da introdução de um novo software, que "dantes é que era bom, agora dá muito mais trabalho"? Isto não significa que o software seja mau e, muito menos, desnecessário. Quer é dizer que, provavelmente, os velhos processos de gestão não se adaptaram à nova realidade.

Se não houver um esforço permanente de simplificação, a tendência será para que a complexidade passe rapidamente a ser sinónimo de complicação. Para que a crescente sofisticação das ferramentas de gestão, dos processos de decisão e dos modelos de negócio seja compatível com simplicidade organizacional, há que atuar em três áreas: estandardização de atividades, modularização de estruturas e otimização de recursos.

Num mundo com níveis crescentes de complexidade, desafios inesperados e tecnologias cada vez mais sofisticadas, é fundamental que as empresas e as organizações em geral - a começar pelas da esfera pública - não compliquem o que é simples e, se possível, simplifiquem o que é complexo. Porque, como dizia Leonardo da Vinci, "a simplicidade é o último grau de sofisticação". Se este princípio for respeitado, os clientes agradecem, os colaboradores ficam mais motivados, as empresas terão melhores resultados... e a nossa vida fica mais fácil.

Carlos Brito, professor da Universidade do Porto - Faculdade de Economia e Porto Business School

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