Opinião: João Almeida Moreira

O vira-casaquistão

Senado brasileiro aprovou saída de Dilma. Fotografia: Ueslei Marcelino/Reuters
Senado brasileiro aprovou saída de Dilma. Fotografia: Ueslei Marcelino/Reuters

E pensar que a maioria dos craques nem sabe dar um pontapé numa bola!

Ocorre no início de cada ano civil e chamam-lhe mercado de transferências ou janela de mercado. Dura cerca de 30 dias, durante os quais cada equipa se pode reforçar com os craques que pretender – assim haja dinheiro.

Há quem invista milhares, milhões, dezenas de milhões, quantias talvez imorais para os dias que correm, segundo muitas opiniões, mas quando há desafios extraordinários pela frente vale tudo. E eles, os craques, esperam a melhor oferta antes de se decidirem – como profissionais que são, nada mais natural.

“Quem quiser sair por dinheiro que saia logo”, reclama a um jornal um dirigente a quem a janela de transferências corre mal. “É a lei do mercado, escolhe-se quem paga mais”, explica por seu lado um dos craques mais decisivos numa televisão. “Eles pagam luvas, prémios, o que vale é o dinheiro”, admite outro, experiente neste tipo de transação, à imprensa.

E pensar que a maioria dos craques nem sabe dar um pontapé numa bola!

Porque o mercado de transferências em causa não ocorre entre clubes e jogadores de futebol mas entre os 35 partidos políticos brasileiros com assento parlamentar e os seus integrantes – à luz do dia na Câmara dos Deputados, em Brasília. Por lei, a partir de hoje e até 6 de Abril os congressistas estão autorizados a mudar de partido sem que sofram qualquer tipo de ónus ou punição.

Como alguns deles valem votos e decidem eleições nos seus respetivos feudos, os partidos investem, às vezes pesadamente, na sua contratação para garantir mais um parlamentar, inchar a sua bancada e arrecadar mais dinheiro e poder. O dinheiro gasto neste mercado de transferências, porém, ao contrário do do futebol não é privado – faz parte dos chamados fundos partidário e eleitoral, dinheiro do contribuinte a que cada partido tem direito.

Explica o jornal Folha de S. Paulo que a infidelidade partidária é uma tradição no Brasil. Existiu sem amarras até 2007, ano em que o Tribunal Superior Eleitoral tentou barrar a prática; brechas na lei e a morosidade da justiça, no entanto, roubaram eficácia à medida; em 2015, o Supremo Tribunal Federal ainda suavizou as regras para no final do mesmo ano o Congresso Nacional aprovar a lei atual, em que o mercado de transferências se dá, por um mês, mais ou menos no início de cada ano civil eleitoral.

Como a maioria dos deputados e dos partidos não obedece – assumidamente – a nenhum critério ideológico mas sim clientelista, as trocas, hoje em dia ao preço médio de 500 mil euros, são às dezenas – o que faz do Brasil um paraíso dos vira-casacas ou um vira-casaquistão. A maioria dos parlamentares, tal como sucede com a maioria dos futebolistas, tem por isso três, cinco, sete partidos – o candidato à presidência Jair Bolsonaro vai em nove – no currículo político ao longo da carreira.

Mudam, dependendo da melhor oferta – eis a lei do mercado no seu esplendor.

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