Opinião: Luís Miguel Ribeiro

O vírus da incerteza

China. Fotografia: Alex Plavevski/EPA
China. Fotografia: Alex Plavevski/EPA

É necessário encontrar outras soluções para apoiar as empresas, que estão já a sentir um impacto negativo muito significativo na sua atividade

O impacto do novo coronavírus (covid-19) é prova do elevado grau de interpenetração das economias. É também prova de como, de “repente”, os riscos mundiais podem passar a assumir uma vertente completamente distinta e imprevisível – de geopolíticos, a riscos de saúde pública. A OCDE já classificou esta situação como o maior perigo para a economia global desde a crise financeira mundial.

Há muitas incertezas. A reação dos mercados financeiros não se fez esperar, com as bolsas a registarem elevadas perdas, embora com alguma recuperação recente, face aos estímulos anunciados para a economia.

Ninguém se atreve a quantificar, com elevada probabilidade, o impacto global. A China, origem do surto do covid-19, é a segunda maior economia mundial e tem um elevado peso nas cadeias de fornecimento globais. Em menor escala, também Itália, uma das maiores economias europeias, pode provocar um impacto com bastante significado, amplificando o já previsível abrandamento económico europeu.

Nas novas previsões da OCDE, o crescimento mundial será de apenas 2,4%, ou seja 17% abaixo da divulgada há cerca de quatro meses.

Tudo isto é, também, prova da necessidade de respostas globais e concertadas à escala internacional, sob pena de todos perderem. Alguns sinais vão já nesse sentido, com vários organismos internacionais a anunciar que estão dispostos a usar todos os instrumentos para minimizar os impactos desta epidemia. Sabemos, porém, que a eficácia de algumas políticas macroeconómicas, como a monetária, terá agora um caráter mais limitado.

Portugal confirmou a existência de casos positivos de infeção. Apela-se aos novos modelos de organização do trabalho permitidos pelos avanços tecnológicos, como o teletrabalho, o que é positivo. Contudo, muitas das atividades em que a economia portuguesa tem um elevado grau de especialização – como as indústrias transformadoras -, não são plenamente compatíveis com esta modalidade.

É necessário encontrar outras soluções que possam apoiar as empresas portuguesas, que estão já a sentir um impacto negativo significativo ou muito significativo na sua atividade – serão cerca de um quinto, segundo um inquérito que apurámos na AEP. Ainda esta semana, demos conta destas preocupações ao Governo. A linha de crédito para apoio à tesouraria das empresas é, por isso, uma boa notícia.

Luís Miguel Ribeiro, presidente da Associação Empresarial de Portugal

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