O voto infantil

Como os meus filhos não percebem nada de PIB e afins, a minha batalha está perdida. Ventura e o Voice Kids disputam hoje a atenção deles.

Tenho um grave problema em casa: os meus filhos mais novos gostam de ver e ouvir André Ventura. Porquê? Acham piada ele irritar os outros, riem-se imenso com as piadinhas secas do líder do Chega! e ficam sempre na expectativa de que os debates acabem à batatada. Ventura é o novo entertainer infantil dos jornais da noite. Se dantes eles só viam as notícias por causa do futebol, hoje assistem às notícias para ver as novas aventuras de Ventura. São assim como os automobilistas que abrandam para ver os desastres na estrada. E já não me pedem para assistir aos inacreditáveis combates de wrestling, a programas de lutas na lama ou às séries sobre mil e uma maneiras de cometer suicídio. O Ventura chega-lhes.

Há quem me diga "deixa lá, não te preocupes, é uma forma de eles se começarem a interessar por política". Pois, não me convencem. Da mesma forma que um pastor da IURD não é a pessoa mais indicada para guiar as crianças no seu crescimento espiritual, também o líder do Chega! não me parece ser o exemplo político que ambicionamos para a criançada. Mas é difícil convencê-los de que Ventura não tem a inocência do Batatoon, apesar de os entreter tão bem quanto ele. Não é que o senhor seja um perigo para a democracia (longe disso: uma democracia que lida há décadas com a extrema-esquerda, come Venturas ao pequeno-almoço), o problema, caros pais que eventualmente se associam a esta minha preocupação, é o nível. O baixíssimo nível do discurso primário, dos temas popularuchos, das discussões histéricas, da ausência de propostas credíveis e da violência do tom.

É verdade que a extrema-esquerda também sofre destes males, mas a diferença é que os seus protagonistas são na maioria maçadores ou estão sempre zangados. Os políticos do extremo oposto a Ventura estão constantemente a fazer queixinhas e rabugentos. Ora, nada disto é cativante para uma criança. As crianças gostam de rir, de achincalhamento e de insultos. Experimentem dizer cocó ou chulé a uma criança de 4 anos e reparem que ela dá logo uma gargalhada. Ventura tem exatamente esse efeito na pequenada. Já os de esquerda, provocam sonolência.

Também me dizem que "ah, mas Ventura diz o que toda a gente pensa". Mais ou menos. Vejamos: quem é toda a gente e o que é que Ventura diz? Ainda não percebi bem. Sei que ele faz questão de nomear os ciganos como o principal problema nacional e não o aumento da dívida pública, o défice ou a absurda carga fiscal. E convenhamos, o que é tudo isto a comparar com os malandros dos ciganos? Quanto à definição de "toda a gente", depende dos amigos que temos no Facebook.

Mas como os meus filhos não percebem nada de PIB e afins, a minha batalha está perdida. Ventura e o Voice Kids disputam hoje a atenção deles como nem o Bruno de Carvalho alguma vez ambicionou conseguir - apesar do seu indiscutível talento. Por isso, quem sou eu, ou mesmo Marcelo, para ombrear com o líder do Chega! em termos de popularidade infantil? Somos pó. Ventura, em minha casa, reúne a maioria dos votos do eleitorado com menos de 12 anos: um voto e um indeciso. O que não deixa de ser um problema de educação, eu sei.

Jurista

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