Opinião: Jorge Fonseca Almeida

Objetivos contraproducentes: morte e afundamento económico

EPA/JOAO RELVAS / POOL
EPA/JOAO RELVAS / POOL

Compete ao Governo traçar a visão para o país e estabelecer as metas que permitam concretizá-la. A definição de objetivos é uma arte que os bons políticos e gestores dominam com mestria e que permite aos seus países e organizações prosperar. Em contrapartida objetivos mal definidos levam normalmente a desastres sociais ou económicos.

Perante a pandemia causada pelo novo coronavírus os Governos viram-se na eminência de estabelecer novas estratégias de saúde e de definir objetivos claros para todo o sistema nacional de saúde.

O Governo português definiu como objetivo prioritário, claramente enunciado em longas entrevistas e intervenções televisivas, “achatar a curva” impedindo o colapso do sistema das instalações de saúde e o esgotamento de equipamentos importantes como os ventiladores.

Com o objetivo tão claramente definido, todos os recursos foram logicamente postos ao serviço do “achatamento da curva” e as outras patologias deixadas sem tratamento. O que se seguiu foi tristemente inevitável.

Olhando para trás esta definição de objetivos estava completamente errada. Porquê? Porque ela é unidimensional e não leva em contra o principal.

Qual o risco de uma pandemia? Aumentar o número de mortos. Qual então deve ser o nosso objetivo? Minimizar o número de mortes acima do habitual. Este objetivo atinge-se por um lado “achatando a curva” mas por outro melhorando os serviços de saúde para evitar mortes noutras áreas compensando as adicionais que inevitavelmente adviriam da pandemia mesmo que reduzidas ao mínimo.

Portugal tendo definido de forma errada o seu objetivo viu concretizarem-se os piores cenários de desastre humano e económico. O desastre humano mede-se pelas mortes adicionais, o desastre económico pela abrupta descida do PIB.

Só em Julho morreram mais 2.102 pessoas que o habitual. Nos meses o cenário foi semelhante. A maior mortalidade excessiva da União Europeia, o único país a ter a classificação de mortalidade “Extremamente excessiva” do EuroMomo, a entidade que compila a informação sobre a mortalidade na Europa. Um desastre completo que noutro país já teria tido consequências, nomeadamente a de uma extensa revisão da estratégia seguida. Mais de 90% desta mortandade excessiva não tem origem no Covid-19 mas noutras patologias. Exatamente as que foram neglicênciadas. A curva foi achatada mas de forma contraproducente, isto é contribuindo para aumentar as mortes adicionais e não evitando-as. Péssimo desempenho governamental.

Por outro lado o desastre económico medido por uma descida de 16,5% do PIB em base anual, um dos piores desempenhos da União Europeia. Apenas 3 países fizeram pior. Os nossos concorrentes os países de leste todos apresentaram quedas menores. Não ligeiramente menores mas muito menores. A República Checa caiu apenas 10,7%, a Letónia 9,6%, a Lituânia apenas 3,7%, i.e. quase cinco vezes melhor do que nós. Afastamo-nos da média europeia e continuamos o nosso trajeto para a cauda do pelotão que iniciámos no início do século.

Esta é a sina de Portugal. Estabelecer objetivos errados e contraproducentes, que quando alcançados nos deixam pior do que estávamos. É a governação que lamentavelmente temos tido. Falta de visão e de capacidade de gestão.

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