Obrigado, Tory Burch, por vender camisolas poveiras a 695 euros!

A designer de moda norte-americana Tory Burch colocou à venda no seu site de comércio eletrónico uma camisola em tudo idêntica às tradicionais da Póvoa de Varzim por 695 euros. A referida peça de vestuário não era identificada como sendo de inspiração poveira mas baseada na baja mexicana.

Quando esta situação se tornou conhecida em Portugal, há cerca de dois meses, as reações de indignação não se fizeram esperar. Nas redes sociais proliferaram posts em defesa da camisola pertencente à "bela cidade da Póvoa de Varzim". Tory Burch devia era "ter vergonha na cara" por ter copiado "uma parte importante da nossa história e cultura", escreveram patriotas fervorosos.

A própria autarquia, pela voz do seu presidente, declarou que um pedido de desculpas e a reposição da verdade não eram suficientes - impunha-se uma justa compensação da comunidade poveira, em geral, e dos artesãos locais, em particular, que há mais de 150 anos produzem a dita camisola. Sem perda de tempo, preparou-se até um documento com um conjunto de cláusulas que consubstanciavam as exigências consideradas necessárias para a reparação da honra poveira.

Tudo isto se entende... mas é apenas uma das faces da moeda. A outra diz respeito ao valor criado - ou melhor, ao valor que não é gerado e que poderia e deveria ser. Basta dizer que na Póvoa de Varzim essas camisolas (as originais!) se vendem por um preço que ronda os 50 euros e que as pessoas que as confecionam artesanalmente ganham 1 euro à hora - ou seja, cerca de 150 euros por mês, considerando um horário normal de trabalho.

A minha pergunta é: qual é mais merecedora da nossa indignação? A cópia encapotada de Tory Burch ou a nossa incapacidade para valorizar devidamente a camisola, o que, como sempre acontece, se reflete numa miserável remuneração do trabalho?

De facto, sem colocar em causa a mais que reprovável atitude plagiadora da estilista norte-americana, aquilo que ela nos mostrou é que é possível multiplicar por catorze o valor da dita peça de vestuário. Tivesse Tory Burch feito uma pesquisa mais alargada sobre o que por cá se produz e "arriscávamo-nos" a que nos mostrasse que também é possível valorizar de modo significativo os bonecos de Barcelos, o barro negro de Bisalhães, as rendas de bilros de Vila do Conde ou os tarros alentejanos. E, acima de tudo, a generalidade dos produtos e serviços que exportamos e que, na maioria dos casos, têm uma qualidade bem superior à valorização que conseguem no mercado.

Aquilo que este caso nos evidencia é que o que sobrou a Tory Burch não foi apenas "falta de vergonha". Foram também competências de marketing, coisa que ainda escasseia em Portugal. Quando formos capazes de alavancar o valor e a riqueza dos nossos ativos, passando de uma economia de produção para uma economia de marcas, já não será necessário exigir "justas reparações da honra".

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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