Odores de um futuro próximo

A pandemia serviu de catalisador para a economia do futuro. Aquela em que supostamente viveremos de 2030 em diante; mas que, aqui e ali, já nos tem dado a sentir o seu cheirinho. Na Alemanha, o mercado da economia partilhada ultrapassa os €20 B. Enquanto isso, ter casa própria cada vez mais se tornou um luxo, já que o preço por metro quadrado não tem parado de aumentar, inversamente aos salários reais. Quanto à despesa do Estado, desde os anos 90 que tem escalado vertiginosamente.

Menos autonomia e menos propriedade é o que nos espera numa sociedade altamente interconectada pelas tecnologias da informação e comunicação, embora ultimamente o mesmo não se tenha aplicado à circulação de pessoas. Temos o mundo aos nossos pés, só que virtualmente, sobretudo com os recentes desenvolvimentos no âmbito da realidade aumentada e meta-universo. Faz lembrar a novela de Xavier de Maistre, "Viagens ao redor do meu quarto". Só que, desta vez, o quarto é alugado. Tal como o carro ou quaisquer meios de transporte que encontremos dispersos pela cidade.

Para entendermos o pós-capitalismo das próximas décadas temos de ir às fontes e ler aqueles que o conceberam, e tão claramente o explicam. Ainda em 2020, o Presidente do Fórum Económico Mundial, Klaus Schwab, editou uma das obras mais polémicas da atualidade: Covid-19: The Great Reset. No seguimento das ideias que tem desenvolvido desde os anos 70, o autor defende a urgente necessidade de reiniciar (reset) a economia mundial. No seu entender, o capitalismo falhou e é preciso reconstruir tudo de novo (build back better). Segundo que critérios? Os dele, claro.

Na sociedade interconectada em que vivemos seria, portanto, imprescindível adotar um modelo económico inclusivo. Não apenas no sentido de incluir as periferias sociais, mas cada indivíduo e entidade que integra a totalidade do corpo social. Nesta perspetiva, as empresas já não responderiam somente aos seus acionistas (shareholders), mas a todas as partes interessadas (stakeholders), direta ou indiretamente, no negócio. Numa palavra, a comunidade.

A economia converter-se-ia, por assim dizer, num espelho da realidade digital e virtual em que nos movimentamos. Pois, ao invés de uma teia de organizações autónomas, em competição umas com as outras, teríamos uma sociedade orgânica em que cada parte assumiria compromissos e responsabilidades em relação às demais. Somente desta forma a humanidade poderia construir a sua 4ª Revolução Industrial garantindo, ao contrário das anteriores, mais justiça, mais equidade, mais diversidade, mais igualdade, mais direitos, mais segurança, mais saúde, mais ambiente e um melhor planeta.

Mas, o que, de facto, quererá isto dizer? É muito simples, a propriedade privada tenderá a diluir-se, pois aquilo que teoricamente é de todos implica, na prática, não ser de ninguém. Embora, claro está, alguém tenha de assumir o poder efetivo de gestão e decisão. Motivo pelo qual as organizações internacionais e os Estados passarão a desempenhar um papel redobrado nas tais matérias que a todos dizem respeito (justiça social, equidade, clima, saúde, segurança, etc.). Sob a providência destas entidades, assistiremos à multiplicação de impostos e regulamentações. Por fim, habitar nesta "comune global" requererá a estrita observância de uma ética comum, fiel cumpridora da ideologia vigente; a qual se refletirá em estilos de vida dignos de louvor ou, no mínimo, de aprovação, ante o conjunto infindável de stakeholders a que chamamos comunidade.

Ora, se há pouco mencionámos a Alemanha, mais imperativo se torna mudarmos o foco para os EUA. Pois, por mais surpreendente que seja, também lá o pós-capitalismo começa a encontrar raízes onde se implantar. E talvez por ironia do destino, justamente em alguns dos Estados que mais enriqueceram devido ao capitalismo autêntico, o tal que agora desdenham. É o caso de Nova Iorque e Califórnia.

Começando pelo peso global dos impostos, Nova Iorque é o medalhista de ouro, relegando a Califórnia para o quinto lugar. Por sua vez, a Califórnia lidera de forma incontestável a tributação sobre os rendimentos (13.3%); quiçá ainda mais relevante, por afetar diretamente a vida dos cidadãos. Em 2019, os ganhos anuais de um nova-iorquino médio superaram em cerca de $19,000 os de um texano ou floridense. Em termos líquidos, porém, esta diferença reduziu-se para $10,000. Ou seja, basta fazer as contas ao custo de vida - muito superior em Nova Iorque e Califórnia - para concluirmos que o dia-a-dia do trabalhador comum é bastante mais compensador na Florida ou no Texas, com um imposto de 0% sobre o rendimento pessoal.

Nova Iorque e Califórnia são também os Estados com mais regulamentações e restrições. No entanto, convém não esquecer que ainda estamos a falar dos EUA, onde a localidade mais taxada e regulada é quase considerada um paraíso fiscal e libertário aos olhos de um europeu; sendo esta, aliás, a razão por que a economia americana ainda é a que prevalece em termos globais. Por outras palavras, se efetivamente quisermos escrutinar augúrios do pós-capitalismo em plena terra dos homens livres, teremos de procurá-los noutro lado. Concretamente, na ideologia. Algo que se traduz, por exemplo, na forma se aborda o tema da imigração.

Para simplificar, comparemos a Califórnia e a Florida. Ambos os Estados têm mais de 20% de população imigrante, mas sustentam abordagens opostas. Na Califórnia, o imigrante é visto como alguém que precisa de apoio, acolhimento, sustento, e que lhe sejam atribuídos direitos, visando a sua incorporação no sistema. Em troca, ele não tem de integrar-se, pois a sua cidadania humana, universal, já lhe garante ser acolhido como "um de nós" - motivo pelo qual o termo "alien" foi retirado dos códigos estatais. Deste modo, a sociedade californiana tem-se desdobrado em medidas públicas e entidades de interesse comunitário com vista a assumir uma responsabilidade que, ainda há poucas décadas, estava convicta de não ser a sua. Escusado será dizer que esta visão pouco ou nada se sustenta na tradição americana, aproximando-se talvez mais da europeia; o que certamente a fará encaixar como uma luva no pós-capitalismo global.

Por outro lado, na Florida, todos querem ser americanos de gema. Quanto mais imigrante se é mais se anseia por viver o American Dream. Tornar-se um autêntico estadunidense acaba por ser um processo natural, não burocrático, nem sistémico, nem meramente solidário. Evidentemente, também lá se criam medidas públicas e não faltam entidades de apoio. Contudo, o âmago da integração reside na cultura, no orgulho, na esperança e no privilégio de habitar na terra dos homens livres. Não é o caráter universal, nem muito menos o ideal da cidadania humana, que garante os direitos, mas o indivíduo que se responsabiliza por aproveitar as oportunidades que a terra das oportunidades lhe dá. Quanto aos resultados, parecem estar à vista. Com 21% de população nascida no estrangeiro, a Florida mantém uma taxa de desemprego de 4.6%. Já a Califórnia tem 27% de população imigrante, um desequilíbrio que, a juntar às suas políticas fofinhas, lhe trouxe um desemprego a 7.3% e um pesadelo humano chamado desemprego de longo prazo.

Enfim, ninguém sabe o futuro, e entendo que um planeta altamente interconectado se reflita numa economia muito mais comprometida entre as partes que a formam. Mas, será que tal implica necessariamente a abolição do capitalismo e a reconstrução de uma sociedade à maneira pós-capitalista? Isto é, com pragmáticas tributárias, regulatórias e interventivas embasadas no socialismo; além de uma cultura ideológica favorável à esquerda liberal?

A ver pelos cheirinhos que nos tem dado a Europa e alguns dos Estados mais progressistas dos EUA, ou muito me engano ou, a enveredar por este caminho, em breve o Ocidente precisará de toneladas de desodorizante para não tresandar a miséria.

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