Análise

Oil and Gas 2019: A nova ordem petrolífera

Jaime Nogueira Pinto.
(Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)
Jaime Nogueira Pinto. (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

A evolução ou revolução na geopolítica petrolífera mundial foi tema presente na conferência “Oil and Gas 2019” que decorreu em Luanda, entre 4 e 6 de Junho, e reuniu a fina-flor da indústria e dos políticos e altos funcionários ligados ao sector.

Em Fevereiro deste ano a produção média mundial de petróleo atingiu os 82.389.000 barris/dia (b.p.d.). O primeiro produtor, com 11.664.000 b.p.d., foram os Estados Unidos; seguiu-se a Rússia com 11.200.000 barris e depois a Arábia Saudita com 10.140.000. Nesse mesmo mês, a produção de Angola foi de 1.457.000 b.p.d., ficando como o segundo produtor africano depois da Nigéria, com 1.731.000 b.p.d.

A Shale Revolution

Estes números e o que eles traduzem – a passagem dos Estados Unidos para o primeiro lugar na produção de crude – devem-se essencialmente à chamada Shale Revolution, um avanço decisivo na tecnologia da exploração petrolífera que, através de dois processos operacionais – a perfuração horizontal (directional drilling) e a chamada fractura ou estimulação hidráulica (fracking) – veio permitir a extracção de hidrocarbonetos líquidos e gasosos do subsolo, a partir dos xistos argilosos.

O fracking consiste na introdução a alta pressão de uma mistura de água com areia e produtos químicos, como o metanol ou o álcool isopropílico, que vai actuar nos reservatórios, entre as fracturas subterrâneas das camadas rochosas, provocando a migração do petróleo e do gás. Apesar dos protestos dos ambientalistas de que o processo envenena os solos e polui meio ambiente, o fracking vulgarizou-se e esteve na origem da duplicação da produção norte-americana de cerca de 5.500.000 b.p.d. em 2010, para mais do dobro em 2018. Graças a esta mudança, dos cerca de 10 milhões b.p.d. que os Estados Unidos importaram em 2018 a maior parte são de países não OPEC, como o Canadá.

Por outro lado, os Estados Unidos exportaram no mesmo ano de 2018 uma média de 7.600.000 b.p.d.. Daqui resulta um novo panorama de redistribuição de custos e ganhos económicos e de poderes e influência política e geopolítica. A Rússia e a Arábia Saudita dominaram os mercados exportadores mundiais de crude por muitos anos, no tempo em que os Estados Unidos eram, apesar da significativa produção própria, um grande importador líquido. Em 2018, a diferença entre importações (cerca de 10 milhões de barris) e exportações (7. 6 milhões) foi de 2.4 milhões b.p.d.

A revolução do shale oil and gas – do petróleo e do gás natural extraído a partir dos xistos argilosos pelo uso e combinação da perfuração horizontal e do fracking – veio, assim, permitir aos Estados Unidos aumentos significativos da produção nacional, revolucionando a equação energética e, consequentemente, a geopolítica mundial.

No entanto, como o preço de extracção do petróleo convencional na Rússia e na Arábia Saudita (entre 10 e 15 Dólares o barril) continua a ser mais baixo que o custo do barril de xisto americano, nem os russos nem os sauditas diminuíram a produção, esperando que a queda do preço do petróleo no mercado internacional e os custos altos do shale oil levasse os produtores americanos a reduzir a operação.

Ainda que o custo da extracção do petróleo na Rússia e na Arábia Saudita seja menor, a alta dependência do petróleo das finanças e da economia de Moscovo e de Riyadh eleva o break-even orçamental destes exportadores: a abertura e liquidez do mercado americano, com uma série de micro e médias operadoras no shale oil, traz uma melhor regulação natural com menos encargos e os russos e os sauditas não podem considerar a redução de benefícios sociais de que depende parte substancial da sua população.

Uma nova geopolítica da energia

Deste modo, o shale oil permitiu aos Estados Unidos alterações radicais nas suas dependências: a primeira é a dependência do petróleo do Médio Oriente, que em 2018 foi reduzida para cerca de 20% nas importações. Como sublinha um estudo do Atlantic Council, “o novo centro de gravidade da produção de petróleo e gás natural está a deslocar-se para o Hemisfério Ocidental”, com a dramática redução da dependência dos Estados Unidos do crude do Golfo Pérsico. Este hemisfério ocidental apanha o eixo EUA, Canadá, México. Por outro lado, o conjunto de produtores localizados no Golfo do México e no offshore africano diminuiu significativamente a hegemonia da OPEC na fixação dos preços. De resto, o grande cliente do petróleo médio-oriental é hoje a região Ásia-Pacífico, sobretudo a República Popular da China.

Como escreveu Daniel Yergin, autor de The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power, “foi uma viragem de 180 graus para os Estados Unidos com impacto em todo o mundo”. A viragem, não só contribui para a “segurança energética dos Estados Unidos, mas também para a segurança energética mundial, trazendo-lhe novos rumos”.

Embora alguns analistas, como David Hughes do Post Carbon Institute, ponham em dúvida a sustentabilidade a longo prazo da exploração e produção do shale oil norte-americano, a verdade é que a revolução está aí e que, geopoliticamente, os Estados Unidos já dependem hoje menos do Médio Oriente. Apesar dos esforços dos sauditas e dos russos nos finais de 2014 para desencorajar os produtores norte-americanos de shale oil e apesar da falência de companhias como a TEXAS PERMIAN BASIN e a BAKKEN FORMATION do Dakota do Norte, a produção continuou e os Estados Unidos são hoje produtores importantes. E são países da OPEC, como a Venezuela, a Líbia e a Nigéria, que estão a diminuir a produção.

Angola: A nova política petrolífera

No seu discurso de abertura da conferência Oil and Gas 2019, o Presidente da República de Angola enunciou os problemas do sector, começando por reconhecer que, apesar dos esforços com vista à diversificação da economia, os hidrocarbonetos – petróleo e gás – continuavam a ser vitais para a economia angolana. Abordou depois o problema da baixa dos preços a partir de 2014, que obrigou o seu governo a nova legislação na regulação do investimento e do regime fiscal para reconstituir recursos, atenuar o declínio da produção e garantir o abastecimento interno de produtos refinados (de que Angola, produtor de petróleo, importa 80%). Construir refinarias e melhorar a rede de distribuição são outras medidas para enfrentar o problema. A Refinaria de Luanda, construída nos anos 50 e depois melhorada, é a única refinaria em produção no país. A recente crise do abastecimento causou a demissão do presidente da SONANGOL, Carlos Saturnino, e a nomeação de Sebastião Martins.

João Lourenço também se referiu concretamente à construção da Refinaria do Lobito e à Refinaria de Cabinda e a uma requalificação da Refinaria de Luanda. Quanto à legislação e ao quadro institucional, foi criada a Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis que passará a ter as funções, anteriormente pertencentes à SONANGOL, de concessão das licenças de exploração. Destas licenças, 10 estão a concurso este ano e até 2025 estarão cerca de meia centena.

Na preocupação de travar a descida da produção petrolífera do país, o governo de Luanda, considerando o “grande potencial de hidrocarbonetos não explorados”, pretende incentivar os investimentos no sector. O novo CEO da SONANGOL, Sebastião Martins, considerou uma série de empresas do universo SONANGOL para possível privatização – foram pré-seleccionadas 72 para avaliação. Esta iniciativa vem numa linha estratégica de libertar o conglomerado estatal de uma série de companhias e investimentos que estão fora do seu core business.

Presente em Luanda, o Ministro dos Petróleos da Guiné Equatorial, Gabriel Obiang Lima, manifestou o interesse de Malabo em participar na construção da Refinaria de Cabinda. As grandes companhias do sector estão presentes em Angola: atendendo a números de 2018, a primeira em quantidade e valor da extracção, é a francesa TOTAL, representada na Conferência pelo seu CEO, Patrick Pouyanné, que se mostrou interessado em colaborar com o governo de Luanda no aumento da produção.

Recuperar o tempo perdido

TOTAL, BP, EXXONMOBIL, CHEVRON, a norueguesa EQUINOR, a italiana ENI e a chinesa SINOPEC partilham a produção angolana por esta ordem decrescente, sendo que a principal, a TOTAL, com 275.000 b.p.d. tem quase 20% da produção.

Como afirmou o presidente João Lourenço, é vital reactivar a exploração para alterar a tendência de quebra de produção que poderá agravar-se nos próximos anos. Esta baixa de produção deve-se ao facto de, nos últimos anos, não ter havido investimento na pesquisa e produção. Em 2018 venderam-se cerca de 540 milhões de barris a 70 Dólares quando se previa a venda de 620 milhões de barris a 50 Dólares: ou seja, o aumento do preço médio compensou a quebra da produção.

Mas, de qualquer modo, a única forma de recuperar o tempo perdido é esperar, a curto prazo, um aumento significativo dos investimentos em pesquisa e exploração por parte das empresas já em operação ou de novas empresas.

Vão neste sentido as declarações do presidente da BP em Angola, Steve Wills, que, depois de considerar que a redução das despesas de exploração era um fenómeno global, se referiu à taxa de sucesso da pesquisa em Angola, mostrando-se convicto de que a “completa revitalização do enquadramento contratual” e a “nova moldura de intervenção governamental” iriam levar a um aumento da produção. E esta perspectiva optimista parece caracterizar-se: em Outubro, 10 novas concessões serão licitadas na offshore do sul do país, nas províncias de Benguela e Namibe.

O sector petrolífero vai ainda ser, por alguns anos, a base da economia do país, por isso, apesar dos esforços da nova Administração para a diversificação da economia, faz sentido que nele se concentrem, por agora, os esforços da governação.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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