Opinião

Olha o robot

sophia

Em 1981 Lena D’Água e os Salada de Frutas lançavam-nos esse convite. 36 anos depois, olhe-se com atenção para o Atlas, o robot da Boston Dynamics, num vídeo recente de menos de 1 minuto. O filme é impressionante e assustador ao mesmo tempo. Elon Musk, actual supremo guru de tudo o que é tecnologia avançada, twittou: “This is nothing. In a few years, that bot will move so fast you’ll need a strobe light to see it. Sweet dreams…” As preocupações são legítimas. Estaremos no limiar dum apocalipse robótico?

O assunto não é nem descabido nem recente –é aliás um tema comum em ficção científica. Mas o Atlas não é ficção. Já existe. Quem faz um robot destes, faz dois, três, uma legião deles. Pode-se pensar que a sua utilização extensiva, “como nos filmes”, ainda está longe. Mas não está. Eles já andam por aí: temos os drones, bem como os veículos sem condutor, que não têm braços nem pernas mas têm rodas e realizam tarefas mecânicas com autonomia. É uma tecnologia que pode salvar milhões de vidas, mas que levanta questões éticas pertinentes: imagine-se um carro desses, com uma falha nos travões. Num instante, o software pode ter de decidir se o carro embate na vitrina duma loja de luxo (seguindo-se uma pesada indemnização), se abalroa um homem, com uma probabilidade de matar de 60%, ou se colide com uma mulher com um bebé ao colo, com uma mortalidade provável de 30%. O que “ele” decidirá? Quem decide, afinal?

Fala-se pouco da robótica na opinião pública, inclusive nos seus benefícios em potencial. Muitos desconhecem que em Portugal se faz investigação de ponta nessa área, por exemplo no Instituto de Sistemas e Robótica, e no Centro de Sistemas Inteligentes, sediados no Instituto Superior Técnico, em aplicações tais como submarinos autónomos para estudar a Plataforma Continental ou robots que auxiliam cirurgias ortopédicas. É certo que o tema foi aflorado no recente Web Summit: será que os robots nos vão roubar os empregos? É uma questão aliás que é levantada sempre que surge uma nova solução de automação. Eliminaram-se empregos? Sim, mas também se criaram novos.

A questão crucial é outra. Estaremos nós de facto a assistir a um salto qualitativo na relação da humanidade com a tecnologia? É essencial que consumidores e investidores e educadores entendam: a partir do momento em que há um robot que consegue dar um salto mortal de costas, é possível que nada fique como dantes.

Augusto Moita de Deus, Professor do Instituto Superior Técnico

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