Opinião

Olha para o que eu digo…

Fotografia: João Relvas/Lusa
Fotografia: João Relvas/Lusa

O crescimento da receita e a diminuição da despesa social criaram um saldo que fez salivar os interesses corporativos instalados no Estado.

Para um observador parece óbvio, Mário Centeno percebeu, desde o início, duas coisas. A primeira, é um elemento nuclear da economia: as expectativas são fundamentais no comportamento dos agentes económicos. A segunda, tem natureza política: com os parceiros que o PS escolhera, o perigo vinha da despesa pública. Um discurso positivo, umas promessas aqui, umas medidas acolá, uma conjuntura favorável e a dinâmica empresarial já em curso, criaram um ambiente propício, quiçá a roçar o excessivo, patente na subida do crédito ao consumo.

Quanto à despesa pública, Centeno compreendeu que a reforma do Estado nunca se faria com pares para quem a única coisa errada nos serviços públicos é a falta de recursos. Para evitar uma deriva despesista, optou por uma tática duplamente cínica: deu alguma margem ao crescimento da despesa mas conteve-o com as célebres cativações e, sempre que necessário, com o sacrifício do investimento público que atingiu níveis risíveis. Paradoxalmente, a sua tarefa tornava-se mais difícil à medida que a conjuntura melhorava: o crescimento da receita e a diminuição da despesa social criavam um saldo que fez salivar os interesses corporativos instalados no Estado.

Sem capacidade de dar coerência política às retenções de despesa, recorreu à contabilidade, tratando quase tudo por igual. Os resultados estão à vista: nunca alguns serviços públicos, a começar pela saúde e a acabar nos transportes ferroviários, funcionaram tão mal e a administração pública esteve tão desacreditada. Cara, em valores absolutos e, sobretudo, em termos dos préstimos. Um resultado de falhas na gestão: mesmo sem mudar a estrutura, era possível fazer melhor para o que seria necessário reter e atrair pessoas qualificadas, pagando-lhes adequadamente, avaliando-as e premiando as melhores. Como António Costa apregoa ser essencial. Para o país que não para a função pública! Aí prevalece a demagogia: se necessário aumenta-se só na base. Se Centeno pactuar com essa proposta, contrariando o que em tempos escrevera, terá deitado a toalha ao chão. É pena!

Economista, professor universitário

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